quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Bái pipou...

 Foi muito legal brincar com vocês.

Já repararam que faz muito tempo não escrevo mais.

Cansei.

Obrigado a todos que passaram por aqui e deram um alô vez ou outra. Foi uma boa experiência.

Mudei muito nos últimos tempos — e não parece que não vou parar de mudar. Espero que para melhor. Não me reconheço em mais nada do que já escrevi. Este blog parece uma caixa cada vez menor, que cabe cada vez menos ideias e temas. Houve uma fase de imensas amarguras, mas já passou...



Quero começar uma vida nova em 2013. Estou jogando fora todas as tranqueiras que não me interessam mais. O blog é só uma delas.

Há um mundo lá fora que quero conhecer. Espero encontrá-los por aí…

domingo, 6 de maio de 2012

Kyukei

 Bucho cheio. Tentando relaxar. Recostado no banco duro da sala de kyukei, com a expressão de quem pretende transmitir toda a mensagem de um espírito angustiado sem realmente desejar fazê-lo, converso distraído com a única braza bonitinha da fábrica. Tô apaixonado, mas não quero estar, não quero mais rolo com mulher-peoa, tento não brincar, tento não sorrir, não imaginar coisas engraçadas. Mas o instinto xavequeiro esta permanentemente ligado em modo 'on', não tem jeito, basta um filé mignon entrar no radar para meus lábios se moverem sozinhos, disparando um monte de besteiras. Ela se contorce de tanto rir, me empolgo e fico ali exercitando minha capacidade de mentir inventando um cara que, definitivamente, nunca existiu, nem existirá. Ela gosta, relaxa, passa a curtir mais a conversa. Caracas! Como são tolinhas estas peoas.

Queria ser um tolo simplório como a maioria dos dekas também, aí bastaria casar com uma tola dessas, procriar peõezinhos tolos, construir uma família de tolos e viver feliz como peão tolo neste Japão pelo resto de uma vida operária tola. Mas eu… Sinceramente não consigo me manter ancorado a porto algum. Tenho um espírito cigano que nunca me mantêm preso a nada. Sempre me canso das coisas. Tô sempre de mudança.

Verdade, verdadeira, só quero abraçá-la como quem precisa de um colete para escapar de um afogamento eminente. Carência afetiva é uma bosta mesmo. Tento transmitir algo sincero, mas sou cínico demais para isto. Essa tá laço, mas não sei se vou ou se fico.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poulet aux prunes



O filme conta a história do violonista Naser Aki Khan, cuja mulher destrói seu violino, durante uma discussão conjugal. Depois de uma intensa busca por um instrumento de mesma qualidade, percebe que nunca ficará satisfeito. Entendido isto, cai em depressão profunda, decide dar fim a vida, se tranca no quarto por 8 dias, até a derradeira partida. Neste período, alucinações, flashbacks de sua infância conturbada, o amor perdido, e o casamento fracassado explicam os relacionamentos atuais com sua esposa, irmão e filhos. E principalmente, o seu desejo por dar cabo a tudo.

A grande lição desde filme, suponho, é que para viver, não basta estar vivo. (Fica aí a lição para certos dekasseguis como yo.) Portanto, embora Nasser tenha tido uma "vida", suas reflexões no leito de morte demonstram que só passou por aqui.

O filme é um tanto parado, reflexivo, muitos diálogos, poucos eventos. No entanto, o drama está dentro dos personagens e o relacionamento intenso que amarram uns aos outros. A cena em que o protagonista, depois de décadas de distanciamento, finalmente encontra-se acidentalmente com seu verdadeiro amor e não consegue ser reconhecido, é sublime. Um belo poema melancólico.

Disparado o melhor filme que já assisti neste ano até agora. Gostei pacas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Yurushi nashi

Havia uma garota que eu observava calmamente no intervalo do trampo chato na fábrica. Eu a estudava como quem estudava filosofia. Com parcimônia e atenção.

Tinha acabado de ser contratada, e logo se notava que era diferente da maioria das outras peoas. Silenciosa, responsável e cheia de vigor.

Era baixinha e esguia, tinha olhos mestiços, arredondados e grandes sobrancelhas. Logo ficamos amigos. Quando saíamos a toa pelos cantos de Togane-shi, sentávamos quase sempre lado a lado, contemplando o mar. Esfregando os ombros. Dividíamos a cerva, e a comida, com aquela ternura de velhos e bons companheiros. Eu a encarava nos olhos e ela também parava nos meus. Eu me sentia feliz por ela estar ali e ela demonstrava imenso prazer de estar em minha companhia.

Quando nos despedíamos, o abraço era quente e apertado. Havia sempre um beijo, mas nunca na boca. Prazerosos sorrisos.  As mãos pareciam não querer se desvencilhar. Ficávamos um tempo com as pontas dos dedos se tocando – um prazer enorme para ambos. Uma química enebriante.

Depois íamos cada um para seu apato.

E eu sonhava com ela todas as noites.

Tudo ia muito bem, até que uns 2 meses depois, num dia quente de verão, quando, atrás do galpão aonde fazíamos kyukei, escorados nas costas um no outro, bastante relaxados, ela me disse num tom meio solene:

- Tô grávida, Carlito.

Meu mundo pareceu girar, como se estivesse muito bêbado.

Estático, não consegui dizer nada, apenas fiquei viajando, pensando, cada vez mais me distanciando.
Então nos levantamos e nos abraçamos. E eu senti uma vontade imensa de dizer alguma coisa, de chorar e de gritar a plenos pulmões.

E ela ficou me olhando, me olhando, esperando uma resposta.

Covardemente, eu disse:

- Isso é maravilhoso.

Pedi as contas no dia seguinte e parti sem me despedir.

Daquele momento em diante percebi que fugiria sempre da realidade. Fora a última chance de me tornar responsável, de assumir algo que me exigiria verdadeiro desprendimento.

Desde então tenho sido um covarde em assuntos assim.

E agora, um tanto bêbado, quando penso nela, tantos anos depois, penso também na minha primeira namorada, lá no Brasil, que também decepcionei, e me sinto fútil, aceitando-me como fraco e babaca. E continuo a beber, a beber, a beber…

Não mais crio expectativas românticas.

Desde aquele momento, desde que eu soube que ela não queria o pai do filho dela, mas queria a mim, sinto que agi como um individualista, um grandíssimo egoísta.

Perdi um amor que poderia ser bom e verdadeiro.

Sinto, agora, pena de todos os homens que não sabem perdoar.

Sinto pena deles, mas nunca de mim.

Não creio que superarei esta dor.

Tem um lado bom, não causo dor a mais ninguém.

Então fico aqui estancado na vida, porém inofensivo.

sábado, 14 de abril de 2012

Zangyou

Sensação modorrenta,
das horas que nunca passam.
é como estar numa cela solitária,
uma angústia infinita.

Mente ligada na labuta,
revira-se constantemente,
querendo flutuar,
querendo esquecer,
suprimir todo o cansaço,
buscar nalgum lugar,
um refúgio para sonhar.

Quantas horas se passaram?
Quantas horas perdi?
Quanto dinheiro ganhei?
Devaneio inutilmente,
pensamentos persistentes,
cálculos viciosos,
ganhos monetários,
algemas desta vida automática.

Sim, eu, Carlo,
estou conformado,
sou apenas um robô de carne.

Mas,
Porém,
contudo,
entretanto.

Valerá tudo isto a pena?
Será?
Frustrações veladas.
Tédio mortal.
Irritação.
Que vida é esta?
É isso o que quero?
Poderia estar lendo um livro.
Poderia estar na praia.
Poderia estar amando aquela garota bonita.
Poderia…
1 milhão de coisas melhores…

Mas,
E o dinheiro?
Quanto virá?

Mas,
e o tempo?
Quando terei?

Só sei que tenho de suportar.
Eu tenho,
tenho, tenho, tenho…
Que seguir adiante.

Que horas são?
Faltam 8 horas,
7, 6, 5, 4, 3, …
Ok, desisto.
Os ponteiros do relógio desta vida são tão lentos!
Até parecem girar para trás.

Respira rapaz!
Concentra em alguma música.
Esquece as horas.

Sim.
Você sabe porque esta aqui!
Então, gambatê!!!

Que um dia tudo isto acaba,
e o sonho burguês se realiza.

Para uma vida melhor...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Feliz ano novo!

Tá bom. Tô meio atrasado. Mas o que vale é intenção. Então desejo a quem quer que ainda venha aqui,

UM FELIZ 2012!!!
...
..
.
(mesmo que a porra desse mundo acabe. :-p )

sábado, 22 de outubro de 2011

A cidade dorme e os vagabundos bebem

Cada um tinha duas cervas, uma segurando na mão e a outra bebendo como se sorvesse leite do peito da última puta gostosa desse mundo ultra-filho-da-putíssimo. Havíamos atravessado valentemente a cidade rumo aos nossos apatos, e alí estávamos nós, perdidos no meio de um tambô, cansados de tanta andança. Olhei para W. e ele parecia estar totalmente fora de órbita. Mas conseguia andar cambaleante como um guerreiro que fora flagrado com uma amaldiçoada taça de vinho na mão. Eu pensei: "What a fucking travel of hell", e tentei manter um ar fleumático.

Não conseguia me lembrar direito o que tinha acontecido. Há, sim… Estávamos curtindo de boa num sunako, em busca de umas filipas a nos ninar durante a noite. Doce ilusão. Tudo ia bem até que W. engraçou em demasia com a namorada  pinay de outro braza. Aí o pau comeria solto se a Mama-san não intervisse a tempo e W. não tivesse tão bebô que não conseguisse se levantar da cadeira ou resmungar algo inteligível. De qualquer maneira as minas teriam dado no pé assim que percebessem que tínhamos pouco dinheiro. O que a gente não contava era que o P. (nosso carona) nos deixasse na mão e se mandasse sem aviso, assim que o cardo começou a entornar. Sem grana pro táxi, restou sairmos aos tropeços no meio do breu. Estávamos até no rumo certo quando W. sentiu cheiro de cachaça quando passamos por um kombini.
- Tem cerveja ali!. Balbucionou com uma voz sebosa o meu camarada.
Pensei em um monte de impropérios, mas ele completou:
- Acho que tenho grana para umas cervas.
- Porra! Tu tinhas bunfa para o táxi e nós aqui se arrastando a pé!?! Seu f.d.p.!!!!!!!
Catei as notas e acabei ficando no dilema: ficar com as cervas ou arrumar táxi para casa. Fudido e fudido-e-meio nos meus cálculos ébrios não faziam diferença alguma, então decidi: comprei quatro asahis prateadas, afinal só faltava (aparentemente) meio chão para o nosso destino. No caminho W. derrubou uma no chão e a dita rolou para dentro de um tambô alagado. Desesperado, quase se afogou no lodo tentando salvar a latinha. Caracoles, cabei me lamelando todo no resgate ao W. que não sabia mais para qual direção seguir e já ia se perder lá no meião do brejo. E o pior de tudo é que a latinha ainda ficou para trás...
W. esboçava lágrimas diante de toda a nossa dificuldade. Tentei acalmá-lo dizendo que estávamos perto de casa e logo estaríamos de banho tomado e recobrando as forças no conforto de nossas camas.
Mas aquela altura meu cérebro já tinha virado manteiga e na verdade não tinha a menor ideia de qual parte do mundo estava. Descansamos sentados na estradinha esburacada que cortava o tambô. Contemplei o belo luar, o arrozal e os casebres tristes que nos rodeavam. Não havia esperança de solidariedade ali. Mesmo assim, estando no Japão, me senti feliz por ninguém querer levar a pouca grana que restava em nossas imundas calças cheias de lama e fedendo a esterco.


Andávamos e falávamos coisas completamente desconexas, o mundo parecia girar loucamente a nossa volta, e aquilo nos irritava, xingamos um ao outro, porém dentro de um certo clima amistoso.
Este amigo que conheci desde Shimane, sempre esteve ao meu lado, nunca me deixou para trás.  Mesmo no auge da minha indignação pelas trapalhadas dele, gostava do paraíba.

- Quero ser rico! Quero ser rico! Milionário como um político petista!
Gritava meu amigo velho de guerra, cansado de se estrepar nessas fábricas nipônicas em busca do seu pote de ouro, de sua paz burguesa no bananão.

E eu matutava friamente, tanto quanto a cachaça me permitia, por que motivo a gente era obrigada a viver na penumbra de um sinistro Bananão, ou escolher entre se destruir ou se conformar com a mediocridade dekassegui.

Ainda aconteceu de cair um toró daqueles. E a coisa toda ficou muito, muito mais foda ainda. Era tanta água e vento que me imaginei um valente capitão na proa de um navio num mar revolto prestes a ser dragado para as profundezas do Oceano Pacífico, tentando salvar a tripulação e a embarcação. Nos ensopamos até os ossos, mas sobrevivemos.

Sim. Tomamos tombos homéricos no caminho.

Sim. Caímos de bunda por cima de inúmeras poças d'água.

Sim. Xinguei W. até a minha voz ficar rouca de tanto berrar por ter me metido nesta desventura dos diabos.

E sim! Me arrependi até o ultimo pentelho por estar nesta furada.

Mas aos primeiros raios de sol, o toró amainou  e conseguimos, afinal, chegar em casa como guerreiros que acabaram de voltar de uma longa batalha perdida. Ainda tive de abrir a porta do apato de W. que de tão bêbado não conseguia encontrar a fechadura e arremessei-o para dentro como se fosse um saco de batatas.

Fui para o meu canto e dormi cerca de 2 horas, mas logo acordei assustado, com o despertador berrando que era dia de trampo, zonzo de dor de cabeça, cheirando adubo de tambô, banhei-me rapidinho, vesti as pressas o uniforme e depois passei pelo apato do W. para ver se estava tudo bem. Não me atendeu de jeito maneira, o mané. Fui trampar. Meu Deus que martírio! Rastejei pelo kotei, completamente exaurido, como se estivesse uma semana perdido no deserto do Saara, mas cumpri, o quanto me foi possível, o meu dever durante o expediente, tentando braviamente disfarçar o porre da noite anterior. 

W. faltou, e foi kubi no dia seguinte. Tô pensando seriamente em largar esta vida de cachaceiro.