quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um livro de dekassegui

"Dekassegui - ida e volta de um imigrante brasileiro ao Japão" é um belo livro de autoria do ex-dekassegui Alex Possato, no qual narra suas aventuras de peão por estas bandas, lá pelos idos da década de 90, bem no início do movimento dekassegui. Interessante notar que mesmo depois de transcorrido uns 15 anos, situações, problemas e o nosso cotidiano não se modificaram tanto assim. A não ser a banda de internet que ficou bem mais veloz. A latinha de coca-cola passou de ¥100 para ¥120. Me esforço para encontrar algo que possa se destacar daquela época para cá, mas só consigo visualizar um grande vazio...
Baixe o livro em pdf aqui.



Trecho:

Em 1994 eu já me considerava veterano-de-guerra. Praticamente três anos de Japão me fizera outra pessoa, mais responsável, com mais determinação e sobretudo com uma alto-confiança que até então eu desconhecia em mim mesmo. A vida semi-solitária em Tsu foi ótima no sentido de me dar tempo suficiente para pensar em meus planos, em tudo o que ocorrera comigo e com os outros colegas naquela experiência um tanto quanto inusitada e desconhecida de grande parte do público brasileiro não relacionado com a colônia nipo-brasileira - grande parte das informações passadas pelos veículos de comunicação são distorcidas ou incompletas, criando uma imagem completamente errada da situação do trabalhador brasileiro em território japonês. Muitos imaginam o dekassegui como um ser abonado pela sorte, portador de alguns milhares de dólares ganhos em pouco tempo, capaz de realizar sonhos como o de comprar casa própria, abrir o próprio negócio, comprar um automóvel zero-quilômetro e outras coisas materiais que o dinheiro proporciona. A verdade não é bem assim. Pela minha experiência, eu diria que uns 30% das pessoas que conhecia realizaram, de alguma forma, algum sonho acalentado no início da jornada ao Japão, os ditos sonhos materiais. No entanto, há de se ver que, por exemplo, um apartamento de classe-média num bairro não muito caro, em São Paulo, não sai por menos de 50 mil dólares, um carro novo simples está na faixa dos 10 mil, um simples telefone custa 4 mil. Depois ainda existem os móveis, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos e o principal: de onde tirar uma renda suficiente para manter um padrão-de-vida razoável, com direito a uma boa escola para os filhos, roupas, lazer, etc., etc., etc. Dos 30% que levaram uma quantia razoável pro Brasil, foram poucos os que obtiveram mais de 20 mil dólares em dois ou mais anos de trabalho. Podemos pensar: é uma boa quantia. Sim, por outro lado não é o suficiente para "colocar o burro na sombra", como gostava de falar meu avô. É um dinheiro que pode sumir num piscar de olhos, seja ele gasto em extravagâncias, ou num investimento desastrado ou mesmo na compra de alguns bens. Talvez por isso a quantidade de brasileiros no Japão tem se mantido estável durante todos estes anos, a partir da década de 90.
Muitos voltaram com os hábitos mudados, acostumados ao poder aquisitivo do salário e apesar do sofrimento que representa o trabalho em linhas-de- produção, construção-civil, fábricas de todos os tipos, acharam por bem enfrentar mais uma vez a dura rotina dekassegui. Uns voltam, outros vão, num círculo até agora constante.

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