quarta-feira, 30 de julho de 2008

Post longo e chato...

Interessante como um pequeno incidente pôde derivar tanta confusão. Assim como, teorizam alguns cientistas, que o bater de asas de uma borboleta (alguns fatos me fazem acreditar que o fratular de uma vaca também tenha o mesmo poder de fogo :-p ) no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano.
Explico. Mas antes aviso. Vai ser longo e chato, mas como estou com uma vontade louca de aliviar uma certa coceira nos dedos, ai vai...

No setor aonde estou alocado no Butantã, chamado “facão”, opero máquinas que cortam blocos em pequenas partes que mais tarde serão transformados em condensadores. É um típico trabalho dekassegui, basicamente requer um pouco de habilidade manual, certo reflexo visual, um raso conhecimento geral, baixo nível intelectual, enfim um "brainless job" como diriam os gringos. Cada operador é responsável por uma única máquina, num sistema hipoteticamente isolado (por isto gosto dele), aonde o sujeito ficaria na sua posição durante onze horas produzindo peças, e ao final do seu expediente passaria o serviço ao seu "hantai" (operador do outro turno), bateria seu cartão-ponto e iria embora, para dali a doze horas e durante a semana, repetir todo o processo again, again, and again...
Seria um serviço simples, tranqüilo e o setor funcionaria harmonicamente se alguns brasileiros(as) que ali enfiaram não fossem tão infantis, medíocres e egoístas, ou seja, tão genuinamente "brasileiros" nas suas atitudes.
Um ano e meio metido ali e tenho tantas estórias para contar, que preencheriam um livro da espessura do Aurelião.

Tenho minhas idiossincrasias e sei que podem ser absurdas e até insuportáveis para outras pessoas, e já profundo conhecedor de como funcionam as coisas no Butantã, passei a adotar uma postura ao estilo britânico em minhas relações interpessoais para evitar aborrecimentos. Falo pouco, porém educadamente, cumprimento somente quem trabalha próximo ou possui alguma relevância administrativa. Reservo sorrisos e palavras descontraídas para pessoas com as quais realmente prezo e respeito. Para as outras, mesmo quando meu interior esta pulsando de felicidade, sempre fico a demonstrar uma cara semi-amarrada, com certos traços irritadiços, sonolento e indiferente, justamente para afastar eventuais incômodos sociais.
Imaginei que assim comportando, de forma impopular, seria ignorado, deixado de lado, passaria a ser uma presença invisível e certamente evitaria problemas, mas para a minha estupefação as coisas não funcionam exatamente assim na prática. Sem me dar conta, colecionei desafetos entre indivíduos com os quais jamais travei qualquer contato ou tão somente cumprimento.
É... Realmente a vida é não é simples. Não pode ser reduzida a uma mera fórmula de comportamento.

Creio que para me alinhar com o pessoal teria que rever minhas atitudes sociais. Ter um comportamento mais latino, ou seja me transformar num ser hipócrita, falso, bobo-alegre e no cúmulo da perfeição virar crente para enfim tornar-me um típico brasileiro médio-barrela e então ser um cidadão aceito na "bolha brasileira" aqui na ilhota.

Mas voltemos ao que seria o tema central deste post:

"R" esta na lista das pessoas que me eram totalmente indiferentes, mas sempre tratei-a com o devido respeito, fique bem claro. E quando é minha hantai sempre deixei a máquina na melhor ordem possível e passei o relatório da forma correta. Mas acontece de R ser desleixada, ao nível da porquice no trato da máquina. Durante cinco meses, nas raras vezes em que acontecia de alternar a máquina com ela, fazia vista grossa a esse hábito suíno, e para não criar qualquer tipo de intriga, esperava ela sair do setor para limpar a máquina fora de suas vistas. Dava um certo incomodo, perdia-se tempo, sem falar no inconveniente de parar o que se estava fazendo para fazer a limpeza e depois reiniciar a produção. Tudo para preservar os delicados sentimentos de R.
Mas o tempo passou, houve cortes na produção e por conseqüência diminuição de pessoal no setor e passei a alternar frequentemente com R. E assim sendo, não teve jeito, quando percebia a máquina suja, logo depois de receber o relatório, passava rapidamente a fazer a limpeza da bendita, da maneira que considerava minimamente ideal para seu bom funcionamento, enquanto R alegremente fofocava com as outras peoas, como normalmente acontece. Mas não é que R conseguiu ofender-se por isto? Por eu limpar a máquina que estava operando, no meu horário de serviço?!?
É claro que R não me veio perguntar o porquê de estar tendo aquele trabalho todo. E nem eu procurei reclamar da imundície, pois acreditei que seria bem mais fácil aceitar a situação de forma resignada e simplesmente refazer o que tinha que ser feito de forma correta.

E reclamar do trabalho de um colega aqui é geralmente subentendido como ofensa pessoal. Mesmo se utilizando de boas maneiras, educação e respeito. Pode dar briga, berros, choradeira e a coisa pode até desgringolar para agressão física. Portanto caso seja necessário, faz-se isto pelas costas, através de um complexo sistema de comunicação, via líder-de-linha do seu turno, que por sua vez vai se comunicar ao líder-de-linha do outro turno que por sua vez irá finalmente repassar a “solicitação” para o seu colega-desafeto do outro turno. E geralmente não surte o efeito desejado. Pode esperar que no dia seguinte haverá uma "contra-solicitação", adivinha de quem?

Todo este enrolado é necessário porque somos uns peões ignorantes e infantis que não conseguem resolver suas diferenças de forma civilizada, ”face to face”. Não sabemos aceitar críticas profissionais de forma adulta. Sempre imaginamos que o reclamante esta posando uma sabedoria fake, dando uma de “rei da cocada preta” do pedaço. E para defendermos nossa fina sensibilidade, jamais consideramos estar procedendo de forma errada. "Nunca é nóis qui erremu." É sempre os “outros” que estão errados... Mesmo quando no íntimo saibamos que os "outros" é que estejam provavelmente certos. Fazer considerações racionais para quê? Mais fácil acionar os nossos escassos neurônios para atacar, difamar e inventar falsos argumentos para prejudicar os "outros". Os "outros" tem mais é que suportar os nossos erros e defeitos, sem ter qualquer direito de reclamar ou questionar nossas ações. Fodam-se os "outros"!!!

Os dias prosseguiram e passei a notar uma certa hostilidade por parte de R, lotes ruins me eram carinhosamente alocados, palavras um tanto bruscas eram ditas, mas como por um milagre a limpeza da máquina passou a feita de forma correta. Vai entender... Quando estava imaginando que o céu estava para brigadeiro, eis que chega ao meu conhecimento as queixas de R em relação as minhas supostas intenções de humilhá-la, por refazer a limpeza da máquina que segundo ela já estava "muito bem feita" e mais uns blá-blá-blás infinitos... Deu-se um certo bafafá no escritório, sobrevindo de uma procissão de líderes me questionando sobre o que tinha acontecido, porque, etc, etc.
Toda uma celeuma inútil e aborrecimentos desnecessários foram gerados porque simplesmente cumpria com minha obrigação de manter a máquina sob minha responsabilidade, limpa, como deveria ser. Com esta simples intenção. Palavra de escoteiro.
Eis como são as coisas aqui, pequenos incidentes que poderiam ser solucionados com um pouco de bom senso, diálogo e talvez um desconfiômetro pouco calibrado para notar certos detalhes, acabam por se transformar numa tempestade de mal-entendidos e calúnias num mísero copo d'água...

2 comentários:

ShigueS disse...

Me supreende como ainda consegues manter o intelecto num ambiente desses. Qualquer teria cometido genocídio em seu lugar. Acho que mereces uma medalha.

Gostei muito do texto, parabéns!
Os adjetivos que usa são dignos de nota... rs

Tubalandia disse...

nem vou dizer nada do que achei do texto...
problema "R"...essa foi boa..inteligente de sua parte....