quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O Escafandro e a Borboleta




Pode parecer meio piegas declarar isto, mas este filme quase me levou ás lágrimas. É tão belo que me senti faltando palavras para descrevê-lo. É sobre a vida de Jean Dominique Bauby, ex-redator chefe da famosa revista francesa Elle, que na plenitude dos seus 43 anos foi acometido de uma raríssima doença que o deixou totalmente paralítico, exceto pelo o olho esquerdo. E fazendo-se uso de movimentos com a pálpebra deste olho, ele comunicava-se com o mundo exterior e inclusive conseguiu de forma brilhante escrever o livro que deu origem a esta película.
A princípio era uma piscadela para dizer sim e duas para dizer não. Mais tarde aprendeu a formar palavras e frases. E ai começou a aventura de escrever seu livro. Todos os dias memorizava os textos, corrigia-os mentalmente a noite e durante as tardes ditava-as para sua assistente. Foi um processo penoso que consumiu meses, mas a despeito de todas as limitações impostas pela sua condição, logrou sucesso e legou ao mundo esta obra pujante, eloqüente, sonhadora e repleta de amor a vida.

Verdadeiramente impressionante é como ele conseguiu manter suas faculdades intelectuais intactas, houve é claro um violento choque emocional ao tomar ciência de suas miseráveis condições físicas. Mas não se deixou vencer por isto. Agarrou-se ao que tinha em mãos, libertou-se de seu escafandro (uma alusão ao seu corpo paralítico) e ousou sonhar, viajar, dar asas a sua imaginação e voar como uma borboleta liberta em campos abertos.

O filme tem algumas passagens deveras engraçadas apesar de todo o cenário cinzento que o envolve. Um dia, durante uma visita, um amigo lhe reporta as últimas fofocas parisienses: "Sabe o que estão falando ao seu respeito? Que tu agora não passas de um vegetal."
Sem o menor abatimento Jean Do rebate ironicamente:"Que tipo de vegetal? Uma cenoura? Um pepino?"
Uma metáfora por demais cruel, considerando a trágica situação, mas bastante exemplar da força interior que ainda bravamente residia no interior de Jean Do.
Nada o derrubou apesar de tudo, e através de sua fértil imaginação manteve-se ainda um sujeito glamuroso, sedutor e principalmente um grande escritor.

Ao terminar de assistir ao filme, ainda emocionado, fiquei aqui a tecer paralelos. Imaginando se algum dia me livrarei deste "escafandro" em que me enfiei e poderei partir para concretizar efetivamente alguns dos meus sonhos. Estive de certa forma tão acomodado nesta vida robótica que as vezes nem tenho a ousadia de sonhar que possa existir algo melhor fora daqui. Que posso fazer algo melhor. Construir algo. Que apesar da minha crescente e contínua decepção com o ser humano, reforçada por estes anos sufocantes sobrevivendo aqui na ilhota, possa existir pessoas boas, corajosas e verdadeiramente honestas neste mundo. Talvez não esteja enxergando. Talvez tenha que modificar meu modo cínico e por vezes amargurado de encarar as coisas...

Mille fois merci, Jean Do...

Meu parabéns. Você é o cara que soube viver. Você é o cara que me apontou que se tem que tentar viver e ser feliz sob quaisquer circunstâncias. Que as possibilidades de um homem são limitadas tão somente pela sua imaginação. E por tua conta, descobri ainda que existe algum resquício de ilusão e romantismo sobrevivendo neste meu espírito embrutecido (e não tão emburrecido)...

Um comentário:

Anônimo disse...

Graças aos torrents baixei o filme juntamente com a legenda, sorte, achei ambos facilmente. Separei um momento especial para assistir o filme junto com minha esposa pois imaginei pela sinópse que seria necessário uma certa concentração. Terminamos de assistir aos soluços da minha companheira. Muito tocante, confesso o nó na garganta em alguns momentos. Ótimo filme!!