segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O cara...

O cara errou outra vez. Caprichou tanto desta ultima vez que o "kaisha" corre até risco de perder o contrato com o cliente. Menos mal que o cara foi finalmente mandado embora. Não antes de aprontar o diabo e melecar a "boa" imagem dos dekasseguis brasileiros com erros, "furyos", mau comportamento e intrigas. Sua permanência perdurou duas longas semanas. Para minha desgraçada sorte fui nomeado o seu "senpai". A primeira vista o cara parecia normal. Tipico paulistano da periferia. Mestiço. Corintiano. Dez anos de Japão. Muitas aventuras e desventuras no arquipélago. Inúmeros trampos no seu histórico. Dekassegui velho de guerra. Mas logo no primeiro dia deu para perceber que o cara não ia dar certo. Ensinava-lhe o trampo uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete , ...,sei lá quantas vezes, de diversas formas e maneiras e o cabra da peste não aprendia... Ou se aprendia, esquecia quase no mesmo instante. E era destemperado. Muito. Uma vez pedi-lhe que buscasse um tal ingrediente no depósito, na prateleira B da estante "transversal". Na única estante transversal do depósito. E o cara demorou... Demorou... E quando retornou, muito nervoso, já veio esbravejando umas estórias esquisitas de eu estar lhe aplicando uma pegadinha de mau gosto e coisa tal... Porque segundo ele, por mais que tivesse fuçado o local, não encontrou nenhuma estante "transparente"... Expliquei-lhe novamente que não era estante "transparente", mas sim "transversal". Nem a audição do pobre diabo funcionava direito. Ai acabei descobrindo que esta palavra não existia no vocabulário do cara. Não sabia o que significava a palavra "transversal". E nem era porque o japonês tinha ocupado o lugar do português na sua cabeça vazia, o sujeito mal "nihongava" o básico.
Também tinha problemas com contas. Até sabia usar a calculadora para efetuar as operações básicas. Mas isso não é o suficiente neste trampo. Quando falta a quantia determinada na receita do recheio/tempero de um ingrediente é necessário refazer o cálculo da quantia de todos os ingredientes listados. Para que exista proporcionalidade na mistura dos ingredientes e o sabor não se altere... Usa-se regra de três para fazer isto. Durante as duas semanas que o infeliz esteve aqui, não aprendeu. Não conseguiu entender esta simples regra de matemática básica por mais que lhe fosse explicado.
Logo nos primeiros dias me perguntaram como o cara estava indo. É claro que fui honesto em dizer que o cara não servia pro trampo e expliquei com justiça o que estava acontecendo. É claro que me culparam por não estar ensinando-o direito. E é claro, não fizeram nada... E é claro que naquele exato instante percebi que boa coisa não iria acontecer... E finalmente aconteceu... Num dos poucos momentos em que tive que deixá-lo só, o cara errou bisonhamente na mistura dum tempero. Ou seja, cagamos simultaneamente, eu no banheiro e ele na cozinha. E o tempero maldito foi pra linha de produção, para fazer parte do bentou que foi despachado para os kombinis. Voltou tudo. E foi um alvoroço. Parecia que a terra tinha tremido em Kobe-shi novamente. Um daqueles inesquecíveis desastres que marcam eternamente a história dum lugar. Obviamente o cara negou ter cometido qualquer erro. E quando foi-lhe apresentado provas inquestionáveis de sua responsabilidade, é claro que o cara me culpou por tê-lo ensinado errado, conspirado contra sua pessoa, etc... Felizmente sei bem como agir nestes momentos. Escute o seguinte conselho. Quando tropeçar nas pernas longas da ignorância dekassegui não faça nada. Cale-se. Silencie. Nem cogite argumentar com a burrice. A idiotice venceu. Se conseguir disfarçar, ria interiormente. Dá um certo consolo. Talvez consiga manter teu emprego, certa dignidade e quem sabe a imagem imaculada...
Sei que voltei para casa com a cabeça ardendo de estresse depois deste lastimável episódio. Liguei meu iMac e um fórum do Orkut escancarou-se no meu browser e não é que encontrei um cara lá muito parecido com este "cara". Irmão ou alma gêmea. Li alguns posts dele e percebi algumas atitudes ultrajantes. O mesmo papo burro e prepotente. A mesma origem favelada. Os mesmos ufanismos tupiniquins vazios. Os mesmos modos e trejeitos. E ai surtei. Uma ira tão furiosa me dominou tão completamente que só lembro de ter ficado um bom tempo martelando o teclado com palavras e verdades duríssimas, cruéis, destruindo todos os valores fúteis que o sujeito mais amava, valorizava e sonhava. Foi praticamente um estupro moral, só me faltou descer porrada física no coitado... E sai no frio da noite. Pedalei por horas. Não conseguia abandonar uma ideia fixa. A de não conseguir retornar para o Brasil. Não consigo mais gostar daquele país. Temo ele. Entristeço quando penso nele. Me desgosta muita coisa que se relaciona a ele... Não desprezo a nacionalidade, mas não consigo me orgulhar de ser brasileiro. Nem a lembrança dos bons momentos lá vividos diluem tal sentimento. Ao mesmo tempo tenho com o Japão uma angustiante sensação de não pertencer. Coisa complicada esta de ser dekassegui...

4 comentários:

Bah disse...

É o tal cara que foi expulso da comunidade da crise não? rs.. e falo a verdade, ODIEI cada coisa que ele falou e dei TOTAL apoio na sua declaração. Conheci mta gente aqui q dava desculpinhas q veio de periferia e sei lá mais o que... Mas nao me importo com isso, não precisa ser da colônia ou da periferia pra respeitar, tentar aprender ou ser humilde. Isso o que vc escreveu me fez pensar no que meu pai (japa nativo rs) me disse no Br qdo decidi me instalar por essas terras: "Vc, com estudo, com formação superior, o qual eu, depois de imigrar pra cá, consegui fornecer pra vc, vai ficar num país, onde metade da nossa família que foi é pq está devendo ou pq tem preguiça de correr pelas coisas aqui? Pense bem minha filha, as pessoas que vc vê aqui que foram pra lá, metade não tem nem segundo grau completo, às vezes analfabetas e vc tem lidar com todos os tipos de pessoas e elas não serão mais os descendentes de japoneses que os brasileiros tem a imagem. Vc vai ver um dia que vc não pertence ao Japão, pq vc é gaijin, mas o Jp é bom, é meu país pq sei que ele tem mta coisa que o Brasil não te oferece, mas vc paga um preço por ele e não falo de dinheiro". Não sei vc, mas os pais sabem o que dizem.
Kisu!

kurati disse...

Cara ,eu vim de periferia,e de origem humilde,mas assim como vc odeio esses tipinhos que se acham o dono da razao.Vc teve o azar de ficar como sempai de um ze ruele desse patamar.O japao infelizmente esta cheio de trastes ,e felizmente metade dessa racinha vai embora com essa crise.

Para o alto e avante! disse...

Ola Carlo,
Encontrei seu blog por um acaso (e graças ao link no blog do Shigues). Gostei muito da forma como vc usa as palavras para contar uma história. Com sua permissão, vou passar por aqui mais vezes.
Estou no Japão há oito anos. Nesse tempo todo conheci vaaarios "caras" como esse que levou "kubi". É triste ver que nossa comunidade (boa parte dela) tem titica de galinha na cabeça...
mas é isso. Para o alto, e avante!

andreia inoue disse...

ola!!!
navegando pela net,encontrei seu blog e nao pude deixar de comentar,vc escreve de uma maneira hilaria,morrir de sorrir com o triste episodio q vc passou,e confesso q vira e mexe tambem topo com pessoas desse nivel aqui!!!!!
abracao