segunda-feira, 16 de março de 2009

O Zé...

Faz um tempão que não falo da "Kitchen Hells". Pois bem, algumas noticias boas e outras nem tanto. Uma muito ruim foi a transferência da Xu. Mandaram a chinesinha pros confins duma linha de montagem de bentos. A mina é nota mil, adorei a companhia dela. Vou sentir saudade daqueles dias em que o trampo chato se transformava numa divertida brincadeira de criança. De quando trocávamos tiros com o borrifador de álcool. De quando estava meio cabreiro, soltava (como de costume) algum gracejo no ar e só de vê-la rir da besteirada, sentia a alma ficar mais leve. De ficar-lhe imitando o sotaque engraçado até a coitada ficar amuada e parar de falar comigo. E ir até ela, falar umas gracinhas e ser perdoado. Pra depois começar de tudo de novo. De ser ajudado. E de ajudar. De trocar sorrisos sem motivo, como se estivéssemos partilhando energias positivas. Puxa vida, trampei com tantas figurinhas aborrecidas, tongas e vazias, pra quando encontrar alguém legal, surrupiarem com ela, assim, num piscar de olhos... Mas não tem nada não, a gente ainda se encontra nos kyukeis da vida e ainda estou devendo-lhe um almoço numa churrascaria em Kobe.
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Trocaram o chefão hitler por outro meio devagar, pero bonzinho. Mais um que se nota claramente que foi promovido pelas forças broxantes do "tempo de casa", não pela justa meritocracia. Por sorte as coisas se fazem "magicamente" aqui, não dependem tanto da intervenção ou competência dum líder nato.
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Entrou um tiozinho brasileiro sossegado e desajeitado no setor. O Zé. Mais um paulistano da periferia. Palmeirense. 17 anos de Japão. Pai de família. Não nihonga muito, mas desta vez ao menos o peão possui português fluente. Certo que tem um sotaque a lá "jagunço", pero inteligível. É esforçado, dedicado e até prestativo. Gente boa o Zé. Tem uma biografia meio frustante. Assim como parte dos dekasseguis, entre idas e vindas, perdeu todas suas economias duramente amealhadas aqui, em negócios que não engataram lá na terrinha. E assim como tantos, houve um momento em que chutou o pau da barraca brasileira, atirou tudo para o alto, decidiu trazer toda a família e na ilhota fixar residência. Afinal, apesar da vida dekassegui tocada a ferro e fogo na labuta diária, a paga lhe garantia sustentar muito bem a família. Morava num apartamento confortável, possuía uma van, sua filha estudava numa escola da comunidade e até sua esposa (brasileira sem descendência) relutante no início, acabou por se adaptar aos costumes tão diferentes deste país. O Japão se tornou um lar confortável e aparentemente seguro. O objetivo de ensacar o máximo de verdinhas e então retornar para a terrinha tinha se transformado numa triste desilusão. O ciclo interminável do vai-e-volta tinha afinal se encerrado. E assim acomodado com a situação o Zé torrava sem dó o excedente financeiro em pequenos luxos e prazeres supérfluos sem qualquer preocupação com o futuro.
O Zé só não contava que a crise fosse ficar tão braba assim. Em fins de setembro do ano passado a patroa perdeu o emprego numa fábrica de eletrônicos e por mais que procurasse, não encontrou outra colocação. Para piorar no mês seguinte, para sua total consternação, o facão afiado da crise mundial encerrou abruptamente sua "carreira" de peão na fábrica aonde serviu religiosamente por mais de seis anos.
O Zé se viu totalmente perdido num mato sem cão, nem gato. Seu castelo desmoronou-se completamente. Por sorte tinha alguma reserva sobrando (vendeu a van e a TV plasma de 50' a preço de banana) com isto pode despachar a família para o brasil (e pra casa da sogra) e aqui esta pelejando alguma coisa. Mesmo assim o Zé não desanima não, vez ou outra, quando comenta algo sobre a crise, emenda no final um antigo provérbio iraquiano lá do seu bairro paulistano: "Nóis inverga mais num quebra, nóis si fodi, mais vai tocano...". E solta aquela gargalhada resignada.
É isso aê seu Zé, GAMBATTE!!!
E vamô tocano, sinão a crise pega nóis di veiz...

3 comentários:

Bah disse...

Powww palmeirense eh de periferia agora??? rs... ahh nao acredito que tiraram a Xu de perto de vc! Trocaram ela por um veio? toma banho viu? hahaahhaha... eh isso, pra quem foi pra fixar residencia, o bicho pegou. Vou dizer que estou MUITO mais feliz aqui do que estava no Japao e nao pretendo voltar MESMO rs...

Kisu!

andreia inoue disse...

Estava sentindo falta das suas cronicas do seu dia-a-dia la na fabrica de bento,sinceramente eu morria de sorrir com aquele colega que nao sabia onde ficava as prateleiras,hahahah,
e que pena que a chinesa teve q ir para outra area,pelo menos nos intervalos vcs ainda se veem,ja é bom ne?e sair para comer fora?e as aliancas ja comprou?hahahah.
e coitado do ze,infelizmente eu conheco tambem uma porrada de gente na mesma situacao dele:veio,mandou dinheiro para algum negocio,nao deu certo,trouxe familia para ser uma despesa aqui na terra do sol nascente,e todo mundo vai gostando da boa vida que as horas duras de batente pode proporcionar e vai torrando tudo sem pensar no amanha,é o famoso carpe diem(aproveitar o momento),mais nao vou jogar pedras,porque cada um sabe o que deve fazer da vida,e pena q eu nao conhecia para comprar a tv de 50 polegadas,hahaha...brincadeira,
falando serio,tomara q as coisas melhorem para o ze!!
abracao.

kurati disse...

Eu já conheci um zé ,que sofria dessa mesma rotina dekassegui.Imagino como ele deva estar agora....minas chinesas são show de bola.Já tive boas experiências,e elas são bem mais amigáveis e simpáticas que as brasileiras.Não tem tempo ruim com elas.