segunda-feira, 15 de junho de 2009

Fome...

Tripas, sangue humano, órgãos despedaçados, vísceras, tudo espalhado a esmo pelo galpão destruído do bentoya aonde até um par de semanas atrás estava labutando o pão nosso de cada dia. Sob a iluminação fosca proveniente da chama do fogão que improvisei como candeeiro observo o outro sobrevivente encostado na parede oposta, N..., chorando compulsivamente como um bebê abandonado.
- Não temos mais comida, vamos morrer de fome Carlo! E a gente tentou de tudo e não encontramos nenhuma forma de sair daqui.
- Calma N...! Desespero não vai levar em nada, vamos manter a calma. Vou tentar quebrar a parede da outra sala e...
- Já fizemos isso!!! Quantas tentativas frustadas serão necessárias, para se convencer que não adianta? Lembra da outra vez? Uma avalanche de entulho quase soterrou a gente. Não adianta. Vamos morrer!!!
- Isso N..., grite bem alto, gaste suas energias a toa e então não vamos mesmo conseguir escapar daqui. Respondi irritado.
Abandonei o gorducho lamuriando na outra sala e mais uma vez tentei divisar alguma saída no meio do breu. Frio. Muito frio. Escuridão. Bastava dar uns passos e sentia a sola do sapato pisotear óculos, pedregulhos, pedaços humanos. Mesmo assim tomei coragem e mergulhei na negritude sombria do ambiente, tateei e auscultei todas as paredes. Nada. Nenhuma brecha. Nenhum som. Nenhuma luz. Nenhuma esperança. Será que o mundo acabou lá fora? Desolado, retornei para a sala aonde estava o N.... Lá ficava a cozinha. E eu estava com fome. Muita fome.
- O que esta fazendo? Perguntou com voz trêmula, o meu companheiro chorão.
- Não esta vendo que estou assando carne?
- Carlo aonde você conseguiu? Porra!! É de gente!!!
Exclamou aterrorizado, enquanto saltava para trás.
- Meu caro, temos que comer algo se quisermos sobreviver até o resgate... Se é que vai haver algum.
- Tenho estômago fraco e ainda por cima sou evangélico, não posso comer de gente!!!
- Não seja fraco, olha só como a coxa da coreana é macia e suculenta. Acho que vou deixar o Hanchou por ultimo, a carne dele já parecia estragada quando vivo, imagina agora.
- É tanta tripa, sangue e banha... Não vou aguentar. Vou vomitar...
- Cê é mole demais! Temos que comer agora enquanto não apodrece, idiota.
- Não consigo. Não sou um animal desalmado como você. Jesus!!! Vou morrer.
Estava quase respondendo. Mas o meu desespero egoísta por sobreviver calou-me. só consegui pensar silenciosamente:
- Morra. Morra logo. Assim terei mais carne fresca para comer!

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Não é a toa que os Stephen Kings da vida ganham uma fortuna como escritores. É um amador qualquer tentar escrever contos de terror para surgir um troço bisonho como este...

2 comentários:

andreia inoue disse...

amigo,teve uma hora que comecei a acreditar q esse conto tinha sido real,nossa,me arrepiei de medo e agradeci a Deus nao te conhecer pessoalmente,ja pensou vc desejando a minha morte para ter uma montanha de carne fresca para comer?medoooooooo!
se vc lancar um livro de terror eu compro so para levar sustinhos,hahahah...beijao.

M-FUSION disse...

Mto bom!!!!! como sempre!!!!
Abraço!!!