sábado, 24 de outubro de 2009

O pesadelo do Carlo

O avião pousou no aeroporto internacional de Cumbicas às seis horas de uma manhã nublada do dia 25 de dezembro de 2009. Desembarquei com a bizarra sensação do mundo estar girando trezentas vezes mais rápido e só eu estar paralisado no mesmo lugar. Fui buscar a bagagem. Suava. Coração batendo a mil. Antevendo que minha vida seria daqui em diante algo como um daqueles filmes de guerra num cenário macabro ao estilo "Cidade de Deus", com direito a tiroteio rolando solto e explosões de granada. Procurei por toda parte, mas não consegui encontrar minha bagagem. Perguntei a alguns funcionários e as únicas respostas que obtive foram sonoras gargalhadas. Ai percebi que minha carteira tinha sumido também. Apertei forte os punhos, rangi os dentes e segurei alguns palavrões que estavam prestes a escapar da minha boca. "Tudo continua como sempre". Resmunguei em silenciosa indignação. Resignado com o prejú, segui com a cabeça baixa em direção a saída do aeroporto como se estivesse percorrendo o corredor da morte. Parecia que havia chegado o momento em que tudo estava escorrendo como água pelas minhas mãos e não sentia afinal, senhor de si em nenhuma porcaria de situação.

Lá de longe notei um velhinho vestido de vermelho. Lembrei que era natal. O sórdido e deprimente comércio natalino de sempre. Tentei passar despercebido.
- Alto lá!!! - Berrou o velhinho.
Virei-me e notei um trezoitão sinistro apontado para minha direção. Instintivamente fiz o que a razão proibia e minhas pernas ordenavam: corri em fuga do pressuposto assalto. Larguei toda a bagagem, e agarrado ao meu iMac disparei por uma avenida escura e logo depois, no meio da penumbra de um descampado notei alguns vultos. Pedi por socorro e quando estava me aproximando de uma animada turba dançando ao ritmo de um baile funk, percebi que eram todos mortos-vivos maltrapilhos vestindo camisas mofadas e rasgadas do corintians. Percebendo o risco mortal bem a tempo, desviei para um matagal e com a multidão de mortos vivos no meu encalço e mais as balas disparadas pelo papai noel triscando as minhas orelhas, abracei a única opção que restava: prendi a respiração, fechei os olhos e saltei para um mergulho cego no rio Tiête. Péssima escolha, para o meu desespero, senti meu corpo ser lenta e dolorosamente desintegrado e fazer parte da água lodosa e ácida do rio ultra-mega-poluído. E quando estava escorrendo para as profundezas de um esgoto fétido, acordei suando frio, trêmulo, porém ileso no meu apato em Kobe-shi. Nossa, pensei que não fosse me safar desta…

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