terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A dura vida do meu broda curitibano

Apesar de ficar nessa de malhar o Orkut sempre que tenho oportunidade, foi através desta rede de banalidades toscas que acabei revendo um amigo das antigas, de muito tempo atrás, de uma época que tínhamos muitos sonhos, muitas esperanças quanto ao futuro.
A última vez que o avistei foi no finalzinho da década de 90, quase no início do terceiro milênio. Um par de anos anos antes, tudo que a gente queria era passar no vestibular, fazer uma faculdade, diplomar e arrumar um trampo bacana. Enquanto isto os mercados emergentes implodiam, a bunda da Feiticeira rebolava nas tardes da Band e pairava no ar a dúvida se os computadores entrariam em colapso na virada do ano, levando consigo o mundo organizado ao caos. Mas tudo bem. Ao som dos Ramones, Red Chilli Pepers e Almir Rogério, a vida era um pouco mais amena e o mundo lá fora que se fodesse.
O tempo passou. O bug do milênio não aconteceu e acabei ingressando numa faculdade pública. Pouco mais de um ano, fui me cansando das constantes cobranças familiares, do curso chato, do colegas manés, da namorada favelada metida a patricinha e do trampo mal remunerado; e de uma hora para outra larguei tudo e me mandei para o Japão sem dar satisfações para ninguém. Minha vida se tornou uma sequência de longas e aborrecidas jornadas de trabalho, raros yasumis, porém menos conturbada e miserável.
Meu broda não teve sorte melhor. A grana não deu para pagar a faculdade particular, casou com a namorada grávida, vieram as dívidas, o estresse da vida adulta e uma constante depressão. Além disso havia aquela nostalgia dos velhos tempos que lhe afligiam duramente a alma. Até que não conseguiu refrear aquela atitude juvenil de ficar com várias pessoas, drogar-se e encher a cara até acabar estirado na calçada. Acabou só e internado numa clinica de desintoxicação pela família. Saiu uns meses depois e ao reencontrar a filhinha nos braços da esposa, emocionado, caiu em prantos e decidiu assumir sua responsabilidade. Trampa até hoje como programador, ganha o suficiente para alugar um apartamento de três quartos numa periferia sombria de Curitiba, sustentar mais uma filha e a sogra inválida que acabou morando junto. Não tem carro. Não sai para viajar, única e exclusivamente por falta de grana. Descer a serra do mar para uma praia pelo menos uma vez por ano, é uma vitória.
Já bastante calvo e obeso para a idade. Passa os fins de semana assistindo programas podres na tevê aberta, lixo como o big brothers bananões, auditórios com apresentadores afeminados, jogos de futebol do coxa rebaixado. Até apareceram outras loiras saradonas e turbinadas, mas nenhuma que chegue aos pés da "nossa" Feiticeira. O rock que a gente curtia parece não existir mais, os Ramones devem estar todos mortos e enterrados e o RHCP não lança algo que preste há anos. Curitiba não é mais a cidade (de bom) modelo. As praças não são mais os cartões postais vistosos do século passado. Andam atulhadas de vileiros (malacos curibocas). Fedem a moradores de rua, mijo, merda e coisas podres. Mas de qualquer forma ele nem tem como passear com a família toda junta, a esposa enfermeira faz plantão no hospital todo fim de semana para complementar a renda. Dureza a vida do meu broda. Sobrevive e existe. Ponto final.

6 comentários:

Patricia disse...

No final das contas muita gente perde a vida sobrevivendo. E não se dá conta de que parar de viver pode ser pior do que morrer. Mas, e que escolhas temos?

madoka disse...

Pois é Carlo, quem disse que seria fácil essa vida heim?
Só curiosidade, que curso vc fez por um ano e acabou desistindo?
abração
madoka

Bah disse...

E tem gente ainda que reclama da vida né? rsss

Kisu!

Carlo disse...

Madoka.
Informática, no Cefet-PR.
[]'s

Leh disse...

É a velha história, um ato pode mudar o rumo de nossas vidas.

Bota vida dura nisso! Tomara que aconteça algo de bom (tudo é imprevisível mesmo) para que a vida dele melhore um pouco, pelo menos.

Quanto a Curitiba, apesar da decadência, ainda é consideradas uma das melhores capitais com qualidade de vida. Imagine o resto...

Luis Ricardo disse...

muito bom seu blog, eh um desejo poder morar no japao!