domingo, 21 de fevereiro de 2010

O ex-deka e o rio Tietê

O ex-deka ia descendo calmamente o rio Tietê quando da margem escutou um gargalhar zombeteiro. Ele estranhou a princípio, depois ficou levemente irritado, mas preferiu ignorar o barranco maroto.
- Porque diabos este idiota não me deixa em paz? Toda vez que me nota, ri descaradamente como se fosse o rei do bananão, sendo que é somente um mero assento para o traseiro de pescadores tresloucados que sonham um dia pescar algo, além de entulho nestas águas pútridas!
Refletia distraidamente, até o momento em que teve de desviar no último instante de mais um monte de merda que flutuava como um iceberg sob a água escura e densa do rio.
- Ufa! Mais um pouco e o meu barquinho ia para o saco!
Suspirou aliviado.

Deu uma vista rápida para os lados. Além da margem parecia haver muitos segredos. Especulou que talvez houvessem tesouros, amores, estabilidade e quem sabe fortuna grandiosa. Mas e as armadilhas do desconhecido? O ex-deka resolveu deixar para lá, não se arriscar e prosseguiu no seu rumo (sabe Deus qual) bem no meio do rio. Antigos hábitos são difíceis de abandonar. Passou anos remando assim no Japão. Porque mudar? Então continuou no seu barquinho a deslizar monotonamente sob a água marrom, no sentido da correnteza, nunca contra. Não era uma atividade prazerosa, mas era só o que sabia fazer. Vez ou outra descansava a mente estressada com o seu futuro postando coisas incoerentes no seu blogue, sem qualquer preocupação com o ridículo que os obscuros habitantes da margem poderiam concluir de seus textos. Também escreveu loucos poemas em belas folhas brancas. Mas quando faltou papel higiênico durante o trajeto, e suas necessidades fisiológicas forçaram seu intestino evacuar, descobriu utilidade melhor para os papéis, principalmente naqueles que já havia rabiscado os tristes versos que o seu cotidiano bisonho inspirava.

Bastaram poucos dias navegando pelo Tietê para o ex-deka notar diferenças abissais com os rios nipônicos. Lá os barrancos não gargalhavam, não tinha que se preocupar em desviar de galhos traiçoeiros e espinhosos, não havia icebergs bostilentos, nem tantas curvas, a água era límpida e não cheirava a esterco.

Mas aqui, para além das margens, e dos arbustos que encobrem a sua visão, vez ou outra escuta risos alegres que parecem convidá-lo a participar de uma grande festa. Pena que o ex-deka não sabe mais o que é ser feliz. E não tem a menor disposição para estacionar sua combalida condução na margem lamacenta. Muito menos animo para escalar o barranco e assim deixar seu mundinho restrito e miserável para trás. Parece que o pobre diabo só sabe mesmo conduzir mecanicamente seu barquinho bem no meio do rio, em qualquer rio, em qualquer parte da galáxia.
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Afê, tava aborrecido, triste, ficando doido de pedra quando escrevi este texto absurdo umas semanas atrás, que acabei não publicando por puro esquecimento. Desde então muita água rolou pelo Tietê, e dentre várias coisas que andei metendo as caras, cabei me inscrevendo na insuspeitável academia de forró de uma professora mucho loca chamada Viví Charlan, conhecida da Deusidete, a tia simpática que arruma a bagunça na pensão aonde me hospedo. Lá esta lotado de muita gente boa e alegre. Alem de aprender a requebrar o meu corpo todo duro e desajeitado, estou me divertindo beça, feliz como um pinto ciscando a macarronada cheirosa que todo domingo a vizinha do lado apronta para o almoço em família.
Forró is magic! Believe!

Um comentário:

Leh disse...

Prefiro o lado do curso de dança... verdade?

Ia ser muito legal (pode ser até uma charge) se postasse Carlo dançando forró....

(Ah, sobre a atualização do blog, que você comentou, acho que é sabotagem... )