domingo, 20 de junho de 2010

Djalma

- E aí esta o garoto que veio do outro lado do mundo!
- E aí, Djalma?
- Sabia que o Saramago morreu?
- Tô ligado. O cara devia ser bom, mas eu particularmente não curtia os livros dele. Tentei um par de vezes, mas nunca consegui terminar a leitura das suas obras. O conteúdo até que era interessante. Mas detestava a forma: poucos parágrafos, poucos pontos finais, falas perdidas entre vírgulas. Porque diabos o cara abolia o uso de travessões nos seus textos? Porra! Tinha dificuldade até para descobrir quando era um diálogo, um pensamento, uma filosofada solitária… E no final tudo acabava constituindo uma zona na minha cabeça, e aí desanimava ler, mesmo quando os buks eram fininhos.
Bem. Também coincidiu de ser uma época em que pretendia me tornar cristão e já viu, o cara avacalhava justamente com tudo que fazia o diabo para ter fé.

Mas e essa cachaça aí? É alguma homenagem ao portuga?

- Não. Cara, tô cansado. Tô desanimado. Cansado de viver, suportar tudo isto e ficar respirando este ar poluído. Tô farto até do meu rosto. Passam os dias e sinto que fico cada vez mais feio e gordo. Porra, você não tem ideia de como isto me perturba. Sempre imaginei que a medida que as velinhas fossem apagadas, acabaria gradualmente metamorfoseando-me numa espécie de clone do George Clooney, saca? Mas não rolou. Que merda. Tô apodrecendo. E aí bebo. E fico remoendo pensamentos etílicos, ao som daquela canção do Waldick Soriano: "Eu não sou cachorro, não /Pra viver tão humilhado/Eu não sou cachorro, não /Para ser tão desprezado", tá ligado? Parece que o meu cérebro esta programado para ficar deprimido sempre que surge a menor fresta de oportunidade. Pensamentos sombrios vêm e vão desgovernados. Fico descontrolado, esgotado, mudo, e sempre acabo aqui, plantado neste balcão toda madrugada, enxugando todo álcool que o meu organismo consegue suportar, tal qual uma gigantesca esponja intergaláctica sedenta por absorver todo líquido que encontra pelo universo afora. Depois ando perdido pelas ruas completamente catatônico. Imaginando como seria bom estar bem distante daqui. Perdido num imenso labirinto. Talvez morto. Comendo grama pela raiz. Ou ter as minhas carnes incineradas e minhas cinzas sendo varridas por um tufão e espalhadas bem no meio do Atlântico. Outras vezes respiro profundamente, e me conformo com este monte de peças desajustadas que me compõe. E aí até consigo me recompor mentalmente por um breve instante. Mas tudo não passa de uma espiral insana e sempre retorno àquelas visões distorcidas de sempre e por exemplo, fico a observar todo o lixo que se acumula por este chão sujo, as baratas, papéis melados de gordura, restolhos de comida, merda de cachorro rolando em direção a um ralo. Eu sou aquele ralo. Todas as coisas que não prestam se dirigem a mim e me entopem. Chega um momento que estufo de tanta porcaria acumulada. Aí transbordo. Como um vulcão, entro em erupção e vomito esse lixo todo de volta ao mundo na forma de palavras caóticas cuspidas da boca de um ébrio louco. É isto. Não estou revoltado. Isto tudo não passa de mera constatação. Queria poder fazer algo. Mas não consigo. Estou amarrado a minha própria mediocridade doentia. Queria crer naqueles livros de auto-ajuda que tentam convencer seres obtusos que todo ser humano é inerentemente possuidor de um talento especial, está aqui para cumprir uma grande missão nesta porcaria de mundo. Talvez se tivesse fé em coisas assim, acordaria com algumas miligramas de animo, e quiçá estes olhos melancólicos de sapo gordo radiariam felizes ante a perspectiva de um dia carregado de oportunidades. Quem sabe assim meu espírito se alimentasse da seiva da esperança que poderia me tornar um ser mais iluminado. Me sinto uma pedra imensamente pesada. Que não se move. Nem pode ser movimentada. Vivo na penumbra. E não consigo sair desta caverna de pessimismo e incredulidade.
- E a seleção está uma droga!
- Além de tudo tem isto...

4 comentários:

andreia inoue disse...

do saramago so li caim e nao gostei,achei interessante,um tanto engracado e so.
vi o filme ensaio da cegueira e gostei.Entao ainda terei que ler algo a mais dele para desempatar,ahhahha.
E esse desanimo todos nos sentimos,as vezes tambem me bate essa depre,a diferenca eh que so entupo meu corpo de comida,bebida nao,ahahha.
E livro de auto ajuda,leio uma vez na vida outra na morte,nao eh meu genero preferido,mais nao esnobo,o ultimo que li dessa categoria foi secret.Mais o alquimista eh o the best.
beijaooo

Patricia disse...

Jura que o Saramago morreu?

Ô, Carlito, já te disseram que você escreve muito??? Cara, adorei o post.

Pierrot disse...

Mto Surreal...
Gostei!

Xaum disse...

O Velho ! Em outras épocas eu intrepreteria este post de forma diferente. Não sei se foi o excesso de calmante que tomei por estes dias que me deixou meio "mortadela"(como dizem aqui no interior).

Espero que esteja tudo bem contigo bro !

Quanto ao texto, sem palavras. Pudera eu escrever como você !

See ya...