quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Momento de percepção


“E a essa hora estou idiota demais pra conferir minha carteira, não sobrou um centavo". (Tristessa, Jack Kerouac).

Aqui também não restou nem um centavo. Sobraram hematomas. Contusões. Minha mão esquerda e maxilar latejam sensivelmente. O pior é a solidão dos derrotados.
Estou no banho. Água e o sangue das feridas escoam para o ralo. Junto vai o resto da minha auto estima. Eu até tento. Mas nunca servi para brigar. Nem quando era muleque. Não porque fosse fisicamente mais fraco que os outros. Era mais a simples constatação de que trocar agressões era burrice, coisa para gente de pouca capacidade cerebral. Atividades para macacos descerebrados. Mais fácil era aceitar com calma a humilhação e depois passar uma borracha naquilo tudo. Nem era por medo. Mas porque dava trabalho brigar. E depois se levasse a pior havia o desconforto de precisar se recuperar, juntar os caquinhos, superar todos os complexos feridos depois da sova. Porque gastar tanta energia assim?

Lembro bem da primeira grande surra. Tinha uns 6 anos e chorava por qualquer coisa. Um dia meu pai, já meio alto, se encheu e me deu um tapa. E outro. Outro. E mais outro. Até eu parar de chorar. Lembro das lágrimas escorrendo pela face, de morder com raiva meus lábios trêmulos, mas chorar como uma garotinha. Ah! Isso nunca mais aconteceu, depois deste pau disciplinador, parei com este maneirismo gay. Não derramei lágrimas nem mesmo no funeral dele, poucos anos depois.

Interessante como são nossos sentimentos. Depois desta última surra, estranhamente me senti orgulhoso por ter confrontado os marginais. De não ter fugido. De ter dado umas boas porradas. É claro, veio também a consciência de que poderia ter sido muito pior. Poderia ter morrido, ou ficado aleijado. Faltou racionalidade. Faltou inteligência. Faltou jogo de cintura. Como eu tinha no Japão. Tenho orgulho de como virava bem por lá.
Preciso me cuidar. Ainda quero viver para escrever meu livro, que cisma ficar emperrado no quarto capítulo. Nem precisa ser publicado. Ninguém precisa lê-lo. Nem apreciar minhas linhas mal escritas. Mas quero terminar algo. Saber que pude criar um livro, uma estória bacana, mesmo que tudo não passe de uma reles literatura pulp de quinta categoria.

Porra. Não consigo entender como deixei as coisas chegarem aquele ponto. Já levei e dei umas boas porradas quando estava no meio da favela brasileira no Japão. Isso foi no começo, quando tinha ancorado as tralhas pela primeira vez naquele país, e era bem jovem. Estava longe de casa, do controle da família. Livre para fazer o que bem entendesse. Mas no fundo não sou assim, violento. Detesto até mesmo discutir verbalmente. Me sinto mal, fico deprimido, triste. Agredir alguém me faz sentir pequeno. O problema é que era constantemente desafiado. Conviver com aquela nikeizada de baixa categoria não era fácil. Aí teve um dia que acabei partindo pra cima. Sem pesar as consequências. Autodestrutivo, impaciente, desafiador. Foi um período conturbado. Queria apagar um fogo que existia dentro de mim, revolta, sei lá o que fosse. Parecia um daqueles personagens do "Clube da Luta". Era um exercício macabro sem objetivo claro.

Os anos passam e você muda.

Acabei me tornando um exemplo de controle. Passei a conversar mais e discutir de menos. A discutir mais e jamais brigar. Auto controle é tudo. Quando me domino, me sinto mais superior. Mais humano. Aí me liberto. Vou insistir na civilidade. Não existe rancor. Não culpo ninguém. Não culpo porra nenhuma. Culpo só a mim mesmo. Bola prá frente. A vida é um constante aprendizado. Só não aprende, quem não quer.

2 comentários:

radiotux2009 disse...

oi carlo,
é isso, o tempo passa e a gente muda, ulalá. uma metamorfose ambulante né?
e acredite no seu projeto, do livro. o fundamental é vc acreditar. Carinho de sua leitora.
ah! cuidado, não reagir é a palavra.
se cuida
madoka

Patricia disse...

É isso aí, Carlo. O importante é fazer as coisas com clareza. Quando se tem isso, é tudo mais fácil.