domingo, 24 de outubro de 2010

Socos, porradas e pontapés.

Em silêncio contemplo a madrugada sereno como um buda em transe nirvânico. Mas lá no fundo há sempre um ruído que quebra a frágil teia de concentração em que a minha meditação ébria, em vã tentativa se equilibra, débil como um prego fincado na areia do deserto. Uma buzina, uma gargalhada, um grito, um cochicho, o silvo de um peido, sempre existe um incômodo ruido invasivo ao meu redor. Pequenas coisas que impedem que a vida flua tranquilamente. Parece que em lugar algum existe paz nesta cidade. Foda-se. Sou reclamão. E não. Não estou aqui para transmitir otimismo. Nem notícias amenas. Sinto que aos poucos vou perdendo a iniciativa. Estou descendendo aos porões sombrios do meu inferno particular.


É em instantes assim que vejo o japa gordinho contornando a esquina em frente ao buteco. Sempre que estou deprê, a minha visão obliterada pelo álcool observam atentamente o caminhar melancólico do garoto. Tem uns 11 anos, no máximo. Deve estar passando uns momentos nada fáceis. Noutra madrugada notei que ele estava com a camisa rasgada e o joelho ralado. Chorando. Hoje está apenas cabisbaixo. Chutando displicentemente uma latinha pelo caminho. É… Não é fácil ser fraco, garoto. Puxa. Como gostaria de dizer ao japinha, que as dificuldades cotidianas só começam a esmaecer quando ele der o primeiro soco. Um bom e firme direto muitas vezes é a solução para qualquer problema na vida. É morder antes de ser mordido. É passar a rasteira antes do puxar de tapete traiçoeiro do inimigo. Pelo menos foi assim que o passar dos anos me ensinaram. Anos de vivência no meio de dekas no Japão. Gente baixa, mentirosa e vulgar. Nikeis da favela, do interior barrento, da periferia suja destas metrópoles brasileiras, principalmente de San Pablo.


Cabou a cachaça. Cabou a vontade. Não faz mais sentindo ficar aqui. Pago a conta e abandono o recinto. Cansado e com sono, enfrento a gelada madrugada paulistana lá fora. Viro a mesma esquina que o japinha cruzou e defronto-me com dois filhos da puta favelados.

Caraca! Era só o que me faltava!

O maior tinha o olhar esfomeado de um lobo da estepe. Aparentava uns 25 anos. O menor, uns 17. Esse aí, tinha o aspecto de um verdadeiro demônio mulato.
- Eí, meu, passa a grana aí.
- Pô, tô sem porra nenhuma aqui. E o menor meteu a mão por debaixo da jaqueta suja, insinuando sacar um berro.
- Vô tê matá, maluco! Tô carregado, tô carregado! Passa a grana, caray!!!
-Tá porra nenhuma, para com isso mermão!
Dei um empurrão no moleque e já ia batendo em retirada quando levei um murro na cabeça. Instintivamente, virei-me e o mais novo mandou um chute na minha coxa.
- Cara, não há necessidade de nada disso, não!
Aproveitei o breve momento de distração e parti pra cima do fedelho. Malemá acertei um soco. O buzíu mais velho acertou-me um chute nas costas que me fez arquear de dor.
- Ok, ok, caralho. Cês querem a grana. Eu dou a grana. Ok?
Mal completei a frase direito, o marginalzinho acertou uma violenta porrada no lado esquerdo do meu rosto. Em seguida o outro emendou um chute no joelho.

Tentei argumentar.
- Calma! Vou dar o dinheiro, porra! Saquei 30 reais de um dos bolsos.
- Tem mais aí, sei que tem, seu japa de merda!
Me deu uma vontade de esmurrar até a morte a carinha morfética do projeto de marginal, mas a esta altura do campeonato já estava ciente que só iria piorar a situação. Faltava disposição, reflexo, brios para partir para cima.
- Não tenho mais nada, mermão.
- Não tem o caralho!
Levei mais um soco no estômago que me derrubou de novo e aí choveram pancadas, socos e pontapés sobre a cabeça, meu corpo encolhido. Ainda assim consegui me levantar, e cheio de fúria e desespero parti para cima do mais velho, que foi se afastando rapidamente. Foi aí que o moleque veio pelas costas e arrancou meus óculos. Maldito filho da puta! Praticamente cego, virei presa fácil. Fazia muito tempo que não tomava tanto soco na minha cara chata.
- Passa a grana!
- Pega, taí, caralho!
Respirando com dificuldade, levantei as mãos e o menor vasculhou os bolsos do meu jeans. Encontrou mais um par de notas de 10 reais, celular, camisinha, moedas e o molho de chaves do meu quarto, malas.
- Estas chaves aqui pra que são, hein?
Cara, pela mor de Deus, não tem serventia nenhuma pra você, dá ela pra mim. Devolve, porra!
- Que se foda, vou ficar com ela e com os seus óculos.
- Porra, cara, não faz isso não! Devolve os meus óculos pelo menos. Porra, eu imploro!
- Cadê a carteira?
- Não uso carteira, não.
- Não usa o caralho! Passa a carteira aí.
- Não tenho, porra!
- Baixa a calça, quero ver se não esta escondida no saco.
Resignado, baixei a calça.
- Tá vendo? Não tenho mais nada, mermão.
- Foda-se vamô levar os óculos e as chaves.
A dupla já estava saindo de cena quando dei um último berro.
- Pera aí, eu tenho mais grana aqui!
Voltaram correndo, famintos como coiotes.
- Cadê a grana?
-Tá no bolso de trás, calma aí.
Nunca o tempo passou tão lentamente para mim.
- Puta que pariu, parece que já foi tudo broda. Devolve meus óculos por favor, mermão! Vai!
- Japonês do caralho, vai toma no cú! Toma então estas porras de volta!
O moleque atirou as chaves e óculos no meio da rua. Encontrei as chaves, mas os óculos estavam com as lentes trincadas.
Acordei de manhã imaginando que estava em Kobe novamente. Mas então senti as dores se espalhando por todas as regiões do corpo. Principalmente no maxilar. Lembrei de tudo. Fiquei triste. Senti vontade chorar. Mas as lágrimas não vieram...

4 comentários:

Patricia disse...

Puta que foda, Carlo!!!! Que ódio que dá ler esses relatos!!! :(

Rogério disse...

Fala ai Carlo td bem? Acho que não, né? Meu nome é Rogério sou ex-deka também e já li seu blog todo embora nunca tenha postado nada pois estou esperando a invenção do teclado telepático porque tenho preguiça de digitar. Como moro no interior de São Paulo em cidade pequena não tenho me preocupar com a violência mas você está em sampa e se não entendi errado isso tudo aconteceu de madrugada. Não quero bancar o chato mas cara nós estamos no bananão e você está em sampa de madrugada com uns goró na cabeça e sozinho, além das porradas talvez tivesse levado um tiro também. Espero que você se recupere logo tanto física quanto emocionalmente e que tome mais cuidado ai porque esses favelados fdp podem passar por ai de novo. Abraços de um leitor seu.

kurati disse...

this sucks man...achei que era uma simples estória,não uma experiência pessoal.Mas é isso.em Sampa não dá pra viver como no JP andando de madrugada de boa...Sorte sua não estarem armados,as porradas doem por um tempo,um tiro acaba com tudo na hora!

Antonio Rebordao disse...

Realmente o mundo não é um lugar justo e o teu texto vez-me dar valor à segurança. Muitas vezes não nos apercebemos do bom que é viver num local onde não tenhamos de viver no sobressalto de um assalto. Votos de uma recuperação rápida.