terça-feira, 23 de novembro de 2010

Muito álcool e pouca fé

Vim das quebradas. Lugar maldito e miserável. Cresci brincando de massinha com a própria merda, banhando em mijo, numa caçamba de lixo qualquer, respirando o mesmo ar sujo que putas, drogados e marginais suspiravam, enquanto minha mãe dava a bunda por míseras moedas que o meu pai gastava com drogas e álcool. Nascer para mim foi como se um canalha masoquista cravasse com prego uma passagem de ônibus, direto pra Puta-que-pariu-do-Inferno, bem no meio da minha testa.
Penei, mas sobrevivi, como as ratazanas que se multiplicam num lixão a céu aberto e um dia esbarrei com Deus enquanto caminhava perdido à noite através da chuva que caia pesada como chumbo e ensopava até os ossos, por um caminho aonde as pessoas morrem de AIDS só de pisar, e o crack rouba teus amigos no instante em que você escarra pro lado. Pois é, foi isso, um dia Deus estava á toa e por falta de fazer absolutamente nada, resolveu perder tempo comigo por um breve instante, escutei palavras solenes que aqueceram meu coração na escuridão e me fizeram chorar incontrolavelmente. Ele dizia para não atravessar a rua como tantos outros ali faziam; e desapareceu subitamente no breu da noite ao som do plim-plim da Globo anunciando que a novela das 8 iria recomeçar. Então, um clarão cegou-me com sua luz esfuziante do outro lado da avenida. Eram as portas abertas de um igreja. Dali mesmo pude sentir o cheiro adocicado da fé de fanáticos inocentes. Imaginei que fosse um milagre. Um sinal. Não percebi sobre o púlpito grandes lobos sedentos de niqueis, arautos da oportunidade, bradando ameaças divinas a respeito de um Deus implacável, que iria pegar, rachar o cu mais do que rachado do fiel tornado infiel que não pode conceder o dízimo a contento e a tempo. Afinal, este é o combustível que move as sagradas engrenagens da Igreja Universal dos Santos Cordeirinhos Que Balem Mansamente.
Muitos décimos. Muito dinheiro. Como se Jesus fosse um profeta do capitalismo selvagem. Ganância descabida forrada por um verniz descorado de amor ao próximo. Como o pastor ali presente, um ex-marginal-drogado, que fumou tanto, cheirou tanto, injetou tanto, pecou tanto, que um dia por milagre se fez filho do Senhor em meio á alvas nuvens de cocaína. Que aberração! Devia ter continuado a explorar as bucetas secas das suas putas que eram vendidas por poucos reais. Devia ter continuado a limpar carreiras brancas com suas fuças. Devia ter continuado a matar, roubar e estuprar. Seria menos bandido.
Naquele momento poderia ter entendido as coisas, mas de tanto o espirito estar embosteado com aquela dança, oração e cantoria em louvor, confundi a voz de Deus, com os grunhidos ferozes do Capeta disfarçado de clamores sagrados diante de uma bíblia que tremia diante de tantas blasfêmias.
- Esta possuído! Esta possuído! Peguem o pênis deste garoto e apertem com toda força até ele gozar sangue! Apontou o Pastor, dedo em riste na minha direção. A turba cercou-me e não houve maneria de escapar.
Meu corpo vibrou, tremeu, meus lábios passaram a expelir palavras incompreensíveis, numa voz rouca e estranha.
- Quantas vezes tê falei para não bater punheta na frente de estranhos? O diabo esta sempre atento. Sisudo. Orelhudo. Deus também. Vou te salvar! Vou te afogar no evangelho. Só não falhe com o meu décimo! Ou o Senhor não irá lhe conceder perdão.

Desfaleci de tanta dor e deslizei por uma melodia suave que parecia flutuar sobre um mar de uma água muito azul e pacífica.
Minha vó chamava lá de longe. Deixa de brincar criança, venha papar a tua sopa. Hoje tem bananinha frita!
Durou pouco o sonho bom.
Num átimo despertei com os berros do Pastor apontando o caminho para o reinos dos céus com a sua pica ereta indicando a direção, pois as suas mãos estavam ocupadas contando o dinheiro das oferendas. O rebanho seguia obediente em fila. Em um momento de breve lucidez compreendi que não era nada daquilo que procurava e saí direto para um boteco.
Tomar cachaça tudo acalma.
Santa cachaça. Tomar no cu também. Se você é das quebradas. Você tenta fingir que é humano. Finge, mas sabe que não é. E tem um medo estranho que pensem que não saiba.
- Japa, você não anda meio cansado de viver?
- Não me canso de nada. Sou um otimista!
- Eu quero morrer!
- Te aconselho a ler aqueles livros.
- Aqueles?
- Pois é. Aqueles.
- Japa, eu preciso me decidir.
- Sério?
- Sim. O meu percurso esta cheio de curvas, pedras, ratos, buracos, degraus, sujeira, cocô de cachorro, mato, cheias, cheias, cheias, cheias, cheias…
- Tsc, tsc. Tão jovem e tão chorão…
- O que posso fazer? Sonhar? Seria devorado vivo pela realidade!
- Fala a verdade, apesar de tudo a vida não é bonita?
- É bonita, é bonita e é bonita! Hey japa! Este conselho ao menos serviu para lembrar de uma bela canção.
- Então pegue aquele revolver.
- Ficou louco???
- Não. Dê um tiro na minha cabeça.
- Por que?
- Porque não sei se terei como comprar mais cachaça amanhã… Só suporto isto tudo bebendo cachaça feito água.
- Cadê o teu otimismo agora?
- Dura enquanto durar a cachaça. Cabei de tomar o último trago.

Que cara estranho! Caí fora rapidinho. Andei torto por alguns minutos. Logo meu corpo se dobrou como um pedaço de papel higiênico, caí tremendo e gemendo dores na calçada. Uma moça me acudiu.
- Você tá bem moço?
- Acho que vou morrer…
- Vou chamar a ambulância.
- Não, não! Chupa a minha benga, que se for morrer, que seja feliz.

Apaguei. A ambulância me recolheu. O hospital estava abarrotando de gente. Acordei no corredor. Fedia urina, vômito e defecação por todo canto.Tinha um japa coberto de sangue. Parecia ser o mesmo que estava no buteco.
- Enfermeira, o rapaz aí esta bem?
- Não. Mais um. Outro ninguém que morre. Este deu um tiro na própria cabeça.
- Que bosta. Aqui é tão igual aonde vivo. Só morre ninguém.
- Parece que o ninguém se chamava Carlo. Disse a enfermeira enquanto procurava alguns reais metidos entre documentos na carteira do suicida.
- Que sortudo! Ele tava mesmo querendo sumir de vez.

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