sábado, 24 de abril de 2010

Florbela Espanca

Visões da Febre

Doente. Sinto-me com febre e com delírio
Enche-se o quarto de fantasmas
Uma visão desenha-se ante mim
Debruça-se de leve…

É uma mulher de sonho e suavidade
E disse-me baixinho:
“Eu me chamo Saudade,
E venho para levar-te o coração doente!

Não sofrerás mais; serás fria como o gelo;
Neste mundo de infâmia o que é que importa sê-lo
Nunca tu chorarás por tudo mais que vejas!”

E abriu-me o meu seio; tirou-me o coração
Despedaçado já sem uma palpitação,
Beijou-me e disse “Adeus!” E eu: “Bendita sejas!…”


Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!



Descobri ao acaso as belas composições desta grandiosa poetisa portuguesa AQUI. Adorei!!! Apesar de ser fã de um estilo mais satírico a lá Gregório de Matos, ela realmente consegue transmitir sentimentos de uma forma que é impossível não emocionar-se.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Meu canto

Não sou poeta,
nem faço poesia que preste,
sou apenas um esperma,
que o acaso fez ganhar a luz do dia.

Meu coração,
não tem dor,
nem amor,
mas tem muita sensação!

Sim! Sou louco de pedra,
e ser normal,
é quase nada
para mim.

Cantar vem de dentro
e deve me agradar de montão!
Todo momento é assim.
E o povo que se foda de montão!

E sigo cantando,
este canto,
no meu canto,
sem ligar pra mais ninguém.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Carlo, o leitor

Tenho lido, lido muito estes dias.
E cada vez que leio,
quero ler livros cada vez mais difíceis,
intransponíveis e de difícil compreensão.

Tanto leio,
que as palavras assumem cores vívidas,
odores ímpares,
formas múltiplas,
sons vibrantes.

Tanto leio que o tempo imutável se torna
e os segundos, minutos, horas, dias
e o calendário todo escapam sua significação...

Tanto leio que esqueço quem sou,
onde estou,
se estou ou se existo...

Tanto leio que mesmo estando aqui,
estou lá, bem longe daqui,
nem imagino que estou aqui,
cogito voltar para cá ou fico mesmo por lá...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Menino da Domingos

Vim das quebradas,
sou filho parido de uma puta,
com um drogado,
família inglória,
lar partido,
sem memórias,
sem carinho,
nem amor.

Sou mais um piá da rua,
menino á toa,
sem estudo,
sem alegria,
sem saúde,
nem amor.

No meu coração assombra o cinismo,
daqueles que não alimentam qualquer esperança,
nem sabem o que será do dia de amanhã.

Não me olhe!
Não me note!
Não quero a tua piedade!

Quero comida!
Quero esmola!
Quero crack!
Quero cola!

Meu ventre ronca raivoso e vazio,
mais uma vez durmo com fome,
sem janta sem ceia á dias.

Meu destino é perambular,
solitário e perdido,
por esta Domingo de Morais,
suja, imunda e sombria,
como tudo na minha vida...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Grande Bosta!

Não tenho bunfa,
não tenho trampo.
E por sorte, não tenho filhos.

Não tenho músculos,
não tenho saúde firme,
muito menos tenho ânimo.

Não tenho casa,
não tenho asas,
nem uma caixa de papelão.

Não tenho carro,
não tenho bike.
E meu tênis está furado.

Não tenho fortuna,
não tenho fama.
E não presto para coisa alguma.

Não tenho amigo,
não tenho cachorro.
E a tartaruga fugiu de casa.

Não tenho coca,
não tenho guaraná.
Nem copo para beber uma tubaína.

Não tenho dona,
não tenho prazeres.
E minha mão esta machucada.

Não sei rimar,
não tenho caneta nem papel.
E muito menos inspiração.

Não tenho bigode,
não tenho charme.
E nem te pago um drink.

Não tenho sofá,
não tenho conforto.
Credo! Não sei mais o que não tenho!

Dizem até que não sou culto,
toscamente rabisco posts e ninguém lê este blog.
Mas nem fico mais chateado.

Mas tenho algo!
Sim! Isso com certeza tenho.
Neste ano especial,
de eleição tão importante,
não tem candidato que preste.
Mas tenho um título de eleitor!

GRANDE BOSTA!!!

terça-feira, 6 de abril de 2010

E agora deka?

E agora deka?
O biscoito acabou,
nem uma migalha restou,
e não pode comprar mais,
pois a grana se acabou.
Zangyou não tem mais,
nem trampo,
nem ao menos arubaito.
O shakai nunca pagou,
então não tem o que receber,
como vai encher,
esta sua barriga famélica?

Você esnobava,
você zuava,
você bagunçava,
mas você tinha tudo,
todos os biscoitos,
de todas marcas e sabores,
tinha amigos,
e conhecidos,
que talvez te pagassem um ramen,
ou um kare,
mas a crise chegou,
a festa acabou,
e agora?
De todas as amizades,
nem uma migalha restou.

Só lhe resta fitar triste,
o fundo do pacote que devorou.
E ainda há fome.
E ainda há carie.
E dói-lhe a barriga,
mas para aliviar,
nem sequer,
uma migalha restou,
daquilo que possuía.

E agora deka?
E agora mano?
O Japão não te quer mais,
mas você quer comer mais,
mas só lhe restou,
nesta sua mão calejada,
trêmula e desanimada,
um pacote vazio.

Se você pudesse comer,
se você pudesse lamber,
se você pudesse apenas beliscar,
se você pudesse ao menos tocar,
se você pudesse comprar...
Mas você não compra nada.
Você está falido, deka!

Sozinho na ilhota,
tal qual um náufrago,
sem parede,
sem teto,
e sem destino,
você se arrasta,
deka, pra onde?

Deka:
- pro bananão,
com o trezentão. :-(

domingo, 4 de abril de 2010

O trabalho

Aqui esta uma chuva de relâmpagos e trovões. Sorte que este endereço fica num lugar alto e a água da chuva escorre morro abaixo e não enchenteia o pedaço. No mais tudo esta se passando numa monotonia de fazer chorar os postes desta melancólica ruazinha paulistana.
Para passar o tempo estou fazendo na maior preguiça um trabalho chatíssimo do meu curso de masso que eu e mais três colegas vamos apresentar na semana que vem. Tava enrolando e empurrando para as calendas, e ia como sempre fazer a coisa aos trancos e barrancos na última hora, até que botei meus olhos de ganso nesta reportagem bizarra.
Eu hein? Melhor prevenir que remediar. Fiz uma forcinha desde manhã e já tô quase terminando o treco. Ufa!

Aproveitando este momento de intenso alívio e paz espiritual gostaria de recomendar o excelente "Odds and Ends" que lia desde a época do Nihon. Sempre desconfiei que a autora fosse escritora. Parece que é. Só não sei se já lançou algum livro.