domingo, 27 de junho de 2010

Cadê o futebol?

Cadê os craques? Cadê as jogadas malandras e geniais? Cadê a criatividade? Nada. Apenas marcação dura, toquinhos de lado, vitórias aborrecidas sobre times obscuros, empate sonolento com uma seleção meia-boca e ainda por cima portuguesa. Apenas o medo aterrador do fracasso.
Porcaria de seleção brasileira! É a cara e semelhança do Dunga. Carrancuda, feia e truculenta. Pior que lá no fundo desconfio que este futebol pífio, mecânico e broxante acabe levando mais um título mundial. Lamentável! Torço com fé para que exista um Deus da bola, e que Ele não permita tal injustiça. Tal pecado. A pior coisa que pode acontecer para o futebol brasileiro é vermos lá na frente o Dunga campeão, prepotente e ainda mais arrogante, xingando a todos e sorrindo satisfeito com o triunfo desse seu jogo sem tempero nenhum.

E o povo, hein? Comemoram o quê? Estão felizes com o quê? Para que tantos fogos de artifícios, buzinaços e vuvuzelas? Sem comentários. Zerou-se de vez o senso critico dos bananeiros. Já não sabiam votar, agora nem ao menos entendem de futebol.

domingo, 20 de junho de 2010

Djalma

- E aí esta o garoto que veio do outro lado do mundo!
- E aí, Djalma?
- Sabia que o Saramago morreu?
- Tô ligado. O cara devia ser bom, mas eu particularmente não curtia os livros dele. Tentei um par de vezes, mas nunca consegui terminar a leitura das suas obras. O conteúdo até que era interessante. Mas detestava a forma: poucos parágrafos, poucos pontos finais, falas perdidas entre vírgulas. Porque diabos o cara abolia o uso de travessões nos seus textos? Porra! Tinha dificuldade até para descobrir quando era um diálogo, um pensamento, uma filosofada solitária… E no final tudo acabava constituindo uma zona na minha cabeça, e aí desanimava ler, mesmo quando os buks eram fininhos.
Bem. Também coincidiu de ser uma época em que pretendia me tornar cristão e já viu, o cara avacalhava justamente com tudo que fazia o diabo para ter fé.

Mas e essa cachaça aí? É alguma homenagem ao portuga?

- Não. Cara, tô cansado. Tô desanimado. Cansado de viver, suportar tudo isto e ficar respirando este ar poluído. Tô farto até do meu rosto. Passam os dias e sinto que fico cada vez mais feio e gordo. Porra, você não tem ideia de como isto me perturba. Sempre imaginei que a medida que as velinhas fossem apagadas, acabaria gradualmente metamorfoseando-me numa espécie de clone do George Clooney, saca? Mas não rolou. Que merda. Tô apodrecendo. E aí bebo. E fico remoendo pensamentos etílicos, ao som daquela canção do Waldick Soriano: "Eu não sou cachorro, não /Pra viver tão humilhado/Eu não sou cachorro, não /Para ser tão desprezado", tá ligado? Parece que o meu cérebro esta programado para ficar deprimido sempre que surge a menor fresta de oportunidade. Pensamentos sombrios vêm e vão desgovernados. Fico descontrolado, esgotado, mudo, e sempre acabo aqui, plantado neste balcão toda madrugada, enxugando todo álcool que o meu organismo consegue suportar, tal qual uma gigantesca esponja intergaláctica sedenta por absorver todo líquido que encontra pelo universo afora. Depois ando perdido pelas ruas completamente catatônico. Imaginando como seria bom estar bem distante daqui. Perdido num imenso labirinto. Talvez morto. Comendo grama pela raiz. Ou ter as minhas carnes incineradas e minhas cinzas sendo varridas por um tufão e espalhadas bem no meio do Atlântico. Outras vezes respiro profundamente, e me conformo com este monte de peças desajustadas que me compõe. E aí até consigo me recompor mentalmente por um breve instante. Mas tudo não passa de uma espiral insana e sempre retorno àquelas visões distorcidas de sempre e por exemplo, fico a observar todo o lixo que se acumula por este chão sujo, as baratas, papéis melados de gordura, restolhos de comida, merda de cachorro rolando em direção a um ralo. Eu sou aquele ralo. Todas as coisas que não prestam se dirigem a mim e me entopem. Chega um momento que estufo de tanta porcaria acumulada. Aí transbordo. Como um vulcão, entro em erupção e vomito esse lixo todo de volta ao mundo na forma de palavras caóticas cuspidas da boca de um ébrio louco. É isto. Não estou revoltado. Isto tudo não passa de mera constatação. Queria poder fazer algo. Mas não consigo. Estou amarrado a minha própria mediocridade doentia. Queria crer naqueles livros de auto-ajuda que tentam convencer seres obtusos que todo ser humano é inerentemente possuidor de um talento especial, está aqui para cumprir uma grande missão nesta porcaria de mundo. Talvez se tivesse fé em coisas assim, acordaria com algumas miligramas de animo, e quiçá estes olhos melancólicos de sapo gordo radiariam felizes ante a perspectiva de um dia carregado de oportunidades. Quem sabe assim meu espírito se alimentasse da seiva da esperança que poderia me tornar um ser mais iluminado. Me sinto uma pedra imensamente pesada. Que não se move. Nem pode ser movimentada. Vivo na penumbra. E não consigo sair desta caverna de pessimismo e incredulidade.
- E a seleção está uma droga!
- Além de tudo tem isto...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cena madrugueira

O sujeito perdeu de vez a razão. Adentrou furioso no boteco e já foi pedindo uma dose de amargura. Sem fazer careta, nem titubear, virou o copo num gole só. Repetiu a dose várias vezes até não caber mais de amargura dentro de si. Saiu balbucionando palavras sem nexo pelas ruas, caminhando torto, esbarrando em pedestres, virando lixeiras, importunando mendigos, e amaldiçoando sua insípida existência. De qualquer maneira ele era só mais um zero esquerda nesta vida mundana: morrer não seria nenhum problema, ninguém daria por sua falta. Entretanto, não tinha a menor ideia de como tudo tinha acabado assim. Porque tanta maldade, rancor, inveja, lhe pesavam na alma? Não sabia a resposta nem conseguia deixar de ser assim. Tantos anos sendo miserável, que bastava pensar de soslaio na felicidade para o coração latejar de dor.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ontem...

Café da manhã - 03:32
Lanche - 09:45
Almoço - 15:00
Jantar - 23:00…
...e putz! Já é hoje de novo.
E meu jantar/café da manhã foi agorinha pouco: 4:10.

Quando vou dar um jeito nesta bagunça???

domingo, 6 de junho de 2010

Mary & Max

Antes de mais nada vou responder a alguns amigos sobre a minha situação aqui no bananão.
Continuo na mesma: sem rumo, sem emprego, sem férias em praias paradisíacas e sem a gostosa da Daniele Suzuki massageando os meus pés calejados. Mas tamô tentando. Continuo meio que levando nas coxas o meu curso de masso, meio que pensando no Japão. As ideias vem e vão como vagalumes numa noite escura. Noutro dia resolvi do nada juntar tudo e sumir para uma vila no Equador. Mas acabei desistindo. Tamos aqui ainda. É isso. A peteca não caiu, mas não garanto nada se consigo mantê-la no ar. De qualquer forma tô tentando galera, tentando e tentando. Para um ex-deka malemá remediado, a esperança é a penúltima que morre. Depois ainda resta o Japão. Então nada de esquentar severamente a cachola. Arrê! A grande verdade é que nem sempre conseguimos realizar os nossos objetivos. O que fazer então? Rir, oras! rá rá rá!
Pelo menos tenho um grande alento. Estou longe. Bem longe da parentada. Que numa definição bem precisa, são um bando de merdas, com exceção da minha avó materna que é um doce de pessoa. E da minha mãe, que foi uma das pessoas mais dignas e honestas que conheci enquanto viva.
Yes!!!! Este distanciamento pelo menos me anima a buscar uma portinha para a felicidade nesta zona de país.




Bem. Voltemos ao que me interessava escrever neste post. É sobre uma animação toda feita com massinhas, utilizando a técnica de stop-motion, bastante incomum nesses dias em que os recursos 3D estão tão em voga. Não se engane pelas aparências, não é uma produção voltada para o público infantil. Pois o roteiro é bastante denso, pesado e incomoda em certos momentos, causando aquela sensação típica de um nó-na-garganta ou soco-no-estômago!
Mas vamos á estorinha:
Max é um judeu quarentão, obeso, uma espécie de eremita urbano. Além de ser aspergiano, o que significa que ele é praticamente um autista com enormes dificuldades em relacionar com o mundo e as pessoas que o rodeiam. E seu drama pessoal é agravado porque ele mora numa Nova Iorque imunda, caótica e cinzenta.
Na outra ponta temos Mary, uma garotinha australiana, gordinha e desajeitada. Filha única, não tem sequer um amigo, tendo como mãe uma alcoólatra cleptomaníaca e um pai ausente. Para complicar sua vida, tem vários problemas de relacionamento com seus coleguinhas na escola, com a professora, que a rejeitam pelo seu aspecto físico e personalidade apagada.
Um dia, contrariando todas as probabilidades, e motivada por uma dúvida infantil: "De onde vêm os bebês na América", Mary decide enviar uma carta a um endereço retirado ao acaso de uma lista de endereços.
E de repente esses seres tão solitários, diferentes e distantes, Mary e Max, se conectam através de uma correspondência de cartas que mudam para sempre a vida de ambos, iniciando uma bela estória de amizade com seus alto e baixos, por duas longas décadas.
Gostei dos personagens, realmente derretem em lágrimas os sentimentos de qualquer um. A forma irônica e até hilariante como são abordados temas como diferença religiosa, sexual, física, alcoolismo, me fizeram dar boas gargalhadas. Além de aprender algumas coisas sobre os sintomas de asperger, descobri algo deveras interessante: sabiam que as tartarugas respiram pelo ânus?

Mas acima de tudo, foi o melhor filme que já assisti sobre amizade verdadeira. Aquele sentimento leal, desinteressado e sincero entre duas pessoas. Aquela comunhão perfeita de almas, que transcende espaço, tempo, imperfeições e no mundo de hoje (não me iludo) só pode mesmo existir numa bela ficção como esta.


Gostei desta frase que aparece bem no final:

“Deus nos dá familiares. Ainda bem que podemos escolher nossos amigos”

É bem por aí mesmo...

sábado, 5 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ronivaldo e sua triste estória

Aqui pertinho, em frente ao metrô Praça da Árvore, tem uma padaria/boteco que funciona 24 horas. É para lá que dou uma esticada de pernas nestas madrugadas insônicas e geladas de San Pablo. Apesar da decadência reinante, o lugar não é tão ruim e vez ou outra me vejo papeando com uns tipos notívagos que pintam no muquifo. São sempre os mesmos. Prostitutas, aposentados, taxistas, policiais, mendigos, vagabundos diversos e o Ronivaldo. Um cara que estava passando maus bocados particulares até semana passada. Tinha fobia de altura, de locais fechados, principalmente espaços reduzidos como elevadores, mas como foi obrigado a morar junto com os pais senis em um apartamento no nono andar, tinha de subir e descer um montão de escadas, um esforço físico que lhe causava tontura e palpitações frequentes. Era também acometido por TOC, manias diversas que lhe tomavam muito tempo e causavam imenso desconforto. Tinha horror a sujeira, e alimentava um ódio mortal da irmã obesa, pois ela só tomava banho a cada três dias e deixava um fedor de gambá putrefato por onde passava. Para suportar as coisas, e conceder uma certa aparência de normalidade ao mundo externo, tomava diariamente três tipos de anti-depressivos, um par de calmantes, além de um obscuro e fulminante tarja preta para se aguentar nas crises mais fortes. Pensou inúmeras vezes em acabar com a vida, mas havia sempre a lembrança da sua responsabilidade para com o filho de 8 anos e também um par de animais de estimação para cuidar (uma tarântula e uma cobra), seus únicos amigos verdadeiros, além do Hasmussem, o amigo imaginário que o acompanha desde a infância.
E claro, ainda existia a empresa funerária da família, com 15 funcionários para tocar.

Certa vez tentou resolver seus problemas frequentando uma dessas igrejas evangélicas fanáticas, não melhorou em nada e ainda lhe surrupiaram cerca de 10.000 reais, que tentou com insucesso reaver na justiça um tempo depois. Além de ser ameaçado com pragas cristãs pelo pastor da dita "igreja", absolutamente nada progrediu no litigio. Por causa destes seus inúmeros comportamentos heterodoxos, perdeu duas esposas, mas tinha ciência de que a culpa era toda dele, por ser do signo escorpião, e portanto, por definição astrológica, ser egoísta, mandão e não gostar nem um pouco de ser contrariado, mas fazer o que… Cada sofredor com suas trágicas idiossincrasias, suas cruzes para carregar sobre a carne viva das suas costas açoitadas pelas tribulações que o destino cruelmente impõe aos humanos infelizes neste mundo desgraçado.

No entanto, cerca de um mês atrás sua crise existencial atingiu o fundo do poço, tomou estriquinina, mas deve ter calculado errado a dosagem, e para sua infelicidade o PS conseguiu fazer uma lavagem estomacal salvadora e portanto ali estava o deprimido Ronivaldo me contando a estória de sua vida miserável nas primeiras horas da segunda passada. Hoje de madrugada fiquei sabendo que ele finalmente tinha resolvido todos seus problemas nesta triste vida terrena, e principalmente com o penoso sobe-e-desce diário pelas escadas do seu prédio. E ainda teve o luxo dos paramentos e encomendamentos saírem gratuitamente, pois tudo seria feito pela funerária dele.
Que sorte não? Pelo menos no fim da sua caminhada algo de bom lhe acontece.


PS: Sim. Este conto é uma bosta! Mas ainda assim menos horrível que ultimo episódio do Lost. OMG, aquilo sim foi por demais insuperavelmente ruim e decepcionante.