sábado, 30 de outubro de 2010

Votar ou não votar

Esta deve ser a eleição mais chata que existiu. Salvo um milagre, a pseudo-guerrilheira, pseudo política, pseudo candidata, número 13, vai faturar a faixa presidencial do semi-analfabeto barbudo. O que se pode esperar de um povo que elege o Tiririca? De qualquer maneira o Serra também não anima muito. Aliás, para começar nenhum dos dois candidatos tem aparência saudável. Parecem aqueles personagens caricatos e doentes de um filme do Fellini. Nenhum é feliz. Nenhum tem carisma. Nenhum traz mensagens reais de renovação, de progresso, de sinceridade ética. Nenhum me faz querer levantar da cama para votar amanhã. Nem o último debate, que assisti quase cochilando, me animou a tomar partido. Foi um jogo retrancado de poucas emoções que acabou num empate broxante. De qualquer maneira, tenho uma certa simpatia pela biografia do 45, inspira certa competência. E só. Tenho um enorme asco pelo que a 13 representa e suas alianças com as figuras mais enlameadas da política nacional. Enfim, neste exato momento, minha indecisão é saber se voto no 45, ou pressiono a tecla branco. Ou faço melhor, passo o dia jogando pôquer online.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Homem ao sol

Diariamente passo por ali, faz parte do meu caminho até o metrô. Durante meu caminhar não consigo deixar de notar um homem com suas roupas gastas, velhas, puídas. Está sempre fumando e rindo, barba por fazer, cabelos desregrados. Parece que não teve muita sorte na vida. Esta ali com sua manta imunda e sacolas de plástico aonde parece carregar tudo o que possui. Não dá para saber o que esta esperando. Talvez alguns trocados, restos de comida, alguma bituca de cigarro. É um tipo muito feio. Daqueles que nasceram para serem fodidos pelo destino. Uma garrafa de cachaça repousa na sua mão. Bebe o álcool e ri. Seus dentes são negros e podres. Sua pele esta encardida de tanta sujeira. Balbuciona algumas palavras e gargalha com vontade. Gesticula os braços, rodopia loucamente sobre o lixo espalhado na calçada. Até parece um artista famoso dançando sobre um palco grandioso, iluminado, de um teatro suntuoso. Uma louca e macabra celebração. Me admira tanta tranquilidade diante de uma situação tão adversa. Não possui casa, mulher, dinheiro, emprego. Nada. Apenas está ali. Apenas existe. Apenas rasteja. Abandonado na rua. Esperando algo sob o sol. Contudo, aparenta a felicidade radiante de um príncipe.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Momento de percepção


“E a essa hora estou idiota demais pra conferir minha carteira, não sobrou um centavo". (Tristessa, Jack Kerouac).

Aqui também não restou nem um centavo. Sobraram hematomas. Contusões. Minha mão esquerda e maxilar latejam sensivelmente. O pior é a solidão dos derrotados.
Estou no banho. Água e o sangue das feridas escoam para o ralo. Junto vai o resto da minha auto estima. Eu até tento. Mas nunca servi para brigar. Nem quando era muleque. Não porque fosse fisicamente mais fraco que os outros. Era mais a simples constatação de que trocar agressões era burrice, coisa para gente de pouca capacidade cerebral. Atividades para macacos descerebrados. Mais fácil era aceitar com calma a humilhação e depois passar uma borracha naquilo tudo. Nem era por medo. Mas porque dava trabalho brigar. E depois se levasse a pior havia o desconforto de precisar se recuperar, juntar os caquinhos, superar todos os complexos feridos depois da sova. Porque gastar tanta energia assim?

Lembro bem da primeira grande surra. Tinha uns 6 anos e chorava por qualquer coisa. Um dia meu pai, já meio alto, se encheu e me deu um tapa. E outro. Outro. E mais outro. Até eu parar de chorar. Lembro das lágrimas escorrendo pela face, de morder com raiva meus lábios trêmulos, mas chorar como uma garotinha. Ah! Isso nunca mais aconteceu, depois deste pau disciplinador, parei com este maneirismo gay. Não derramei lágrimas nem mesmo no funeral dele, poucos anos depois.

Interessante como são nossos sentimentos. Depois desta última surra, estranhamente me senti orgulhoso por ter confrontado os marginais. De não ter fugido. De ter dado umas boas porradas. É claro, veio também a consciência de que poderia ter sido muito pior. Poderia ter morrido, ou ficado aleijado. Faltou racionalidade. Faltou inteligência. Faltou jogo de cintura. Como eu tinha no Japão. Tenho orgulho de como virava bem por lá.
Preciso me cuidar. Ainda quero viver para escrever meu livro, que cisma ficar emperrado no quarto capítulo. Nem precisa ser publicado. Ninguém precisa lê-lo. Nem apreciar minhas linhas mal escritas. Mas quero terminar algo. Saber que pude criar um livro, uma estória bacana, mesmo que tudo não passe de uma reles literatura pulp de quinta categoria.

Porra. Não consigo entender como deixei as coisas chegarem aquele ponto. Já levei e dei umas boas porradas quando estava no meio da favela brasileira no Japão. Isso foi no começo, quando tinha ancorado as tralhas pela primeira vez naquele país, e era bem jovem. Estava longe de casa, do controle da família. Livre para fazer o que bem entendesse. Mas no fundo não sou assim, violento. Detesto até mesmo discutir verbalmente. Me sinto mal, fico deprimido, triste. Agredir alguém me faz sentir pequeno. O problema é que era constantemente desafiado. Conviver com aquela nikeizada de baixa categoria não era fácil. Aí teve um dia que acabei partindo pra cima. Sem pesar as consequências. Autodestrutivo, impaciente, desafiador. Foi um período conturbado. Queria apagar um fogo que existia dentro de mim, revolta, sei lá o que fosse. Parecia um daqueles personagens do "Clube da Luta". Era um exercício macabro sem objetivo claro.

Os anos passam e você muda.

Acabei me tornando um exemplo de controle. Passei a conversar mais e discutir de menos. A discutir mais e jamais brigar. Auto controle é tudo. Quando me domino, me sinto mais superior. Mais humano. Aí me liberto. Vou insistir na civilidade. Não existe rancor. Não culpo ninguém. Não culpo porra nenhuma. Culpo só a mim mesmo. Bola prá frente. A vida é um constante aprendizado. Só não aprende, quem não quer.

domingo, 24 de outubro de 2010

Socos, porradas e pontapés.

Em silêncio contemplo a madrugada sereno como um buda em transe nirvânico. Mas lá no fundo há sempre um ruído que quebra a frágil teia de concentração em que a minha meditação ébria, em vã tentativa se equilibra, débil como um prego fincado na areia do deserto. Uma buzina, uma gargalhada, um grito, um cochicho, o silvo de um peido, sempre existe um incômodo ruido invasivo ao meu redor. Pequenas coisas que impedem que a vida flua tranquilamente. Parece que em lugar algum existe paz nesta cidade. Foda-se. Sou reclamão. E não. Não estou aqui para transmitir otimismo. Nem notícias amenas. Sinto que aos poucos vou perdendo a iniciativa. Estou descendendo aos porões sombrios do meu inferno particular.


É em instantes assim que vejo o japa gordinho contornando a esquina em frente ao buteco. Sempre que estou deprê, a minha visão obliterada pelo álcool observam atentamente o caminhar melancólico do garoto. Tem uns 11 anos, no máximo. Deve estar passando uns momentos nada fáceis. Noutra madrugada notei que ele estava com a camisa rasgada e o joelho ralado. Chorando. Hoje está apenas cabisbaixo. Chutando displicentemente uma latinha pelo caminho. É… Não é fácil ser fraco, garoto. Puxa. Como gostaria de dizer ao japinha, que as dificuldades cotidianas só começam a esmaecer quando ele der o primeiro soco. Um bom e firme direto muitas vezes é a solução para qualquer problema na vida. É morder antes de ser mordido. É passar a rasteira antes do puxar de tapete traiçoeiro do inimigo. Pelo menos foi assim que o passar dos anos me ensinaram. Anos de vivência no meio de dekas no Japão. Gente baixa, mentirosa e vulgar. Nikeis da favela, do interior barrento, da periferia suja destas metrópoles brasileiras, principalmente de San Pablo.


Cabou a cachaça. Cabou a vontade. Não faz mais sentindo ficar aqui. Pago a conta e abandono o recinto. Cansado e com sono, enfrento a gelada madrugada paulistana lá fora. Viro a mesma esquina que o japinha cruzou e defronto-me com dois filhos da puta favelados.

Caraca! Era só o que me faltava!

O maior tinha o olhar esfomeado de um lobo da estepe. Aparentava uns 25 anos. O menor, uns 17. Esse aí, tinha o aspecto de um verdadeiro demônio mulato.
- Eí, meu, passa a grana aí.
- Pô, tô sem porra nenhuma aqui. E o menor meteu a mão por debaixo da jaqueta suja, insinuando sacar um berro.
- Vô tê matá, maluco! Tô carregado, tô carregado! Passa a grana, caray!!!
-Tá porra nenhuma, para com isso mermão!
Dei um empurrão no moleque e já ia batendo em retirada quando levei um murro na cabeça. Instintivamente, virei-me e o mais novo mandou um chute na minha coxa.
- Cara, não há necessidade de nada disso, não!
Aproveitei o breve momento de distração e parti pra cima do fedelho. Malemá acertei um soco. O buzíu mais velho acertou-me um chute nas costas que me fez arquear de dor.
- Ok, ok, caralho. Cês querem a grana. Eu dou a grana. Ok?
Mal completei a frase direito, o marginalzinho acertou uma violenta porrada no lado esquerdo do meu rosto. Em seguida o outro emendou um chute no joelho.

Tentei argumentar.
- Calma! Vou dar o dinheiro, porra! Saquei 30 reais de um dos bolsos.
- Tem mais aí, sei que tem, seu japa de merda!
Me deu uma vontade de esmurrar até a morte a carinha morfética do projeto de marginal, mas a esta altura do campeonato já estava ciente que só iria piorar a situação. Faltava disposição, reflexo, brios para partir para cima.
- Não tenho mais nada, mermão.
- Não tem o caralho!
Levei mais um soco no estômago que me derrubou de novo e aí choveram pancadas, socos e pontapés sobre a cabeça, meu corpo encolhido. Ainda assim consegui me levantar, e cheio de fúria e desespero parti para cima do mais velho, que foi se afastando rapidamente. Foi aí que o moleque veio pelas costas e arrancou meus óculos. Maldito filho da puta! Praticamente cego, virei presa fácil. Fazia muito tempo que não tomava tanto soco na minha cara chata.
- Passa a grana!
- Pega, taí, caralho!
Respirando com dificuldade, levantei as mãos e o menor vasculhou os bolsos do meu jeans. Encontrou mais um par de notas de 10 reais, celular, camisinha, moedas e o molho de chaves do meu quarto, malas.
- Estas chaves aqui pra que são, hein?
Cara, pela mor de Deus, não tem serventia nenhuma pra você, dá ela pra mim. Devolve, porra!
- Que se foda, vou ficar com ela e com os seus óculos.
- Porra, cara, não faz isso não! Devolve os meus óculos pelo menos. Porra, eu imploro!
- Cadê a carteira?
- Não uso carteira, não.
- Não usa o caralho! Passa a carteira aí.
- Não tenho, porra!
- Baixa a calça, quero ver se não esta escondida no saco.
Resignado, baixei a calça.
- Tá vendo? Não tenho mais nada, mermão.
- Foda-se vamô levar os óculos e as chaves.
A dupla já estava saindo de cena quando dei um último berro.
- Pera aí, eu tenho mais grana aqui!
Voltaram correndo, famintos como coiotes.
- Cadê a grana?
-Tá no bolso de trás, calma aí.
Nunca o tempo passou tão lentamente para mim.
- Puta que pariu, parece que já foi tudo broda. Devolve meus óculos por favor, mermão! Vai!
- Japonês do caralho, vai toma no cú! Toma então estas porras de volta!
O moleque atirou as chaves e óculos no meio da rua. Encontrei as chaves, mas os óculos estavam com as lentes trincadas.
Acordei de manhã imaginando que estava em Kobe novamente. Mas então senti as dores se espalhando por todas as regiões do corpo. Principalmente no maxilar. Lembrei de tudo. Fiquei triste. Senti vontade chorar. Mas as lágrimas não vieram...

Sobre o poder da auto sugestão