sábado, 22 de outubro de 2011

A cidade dorme e os vagabundos bebem

Cada um tinha duas cervas, uma segurando na mão e a outra bebendo como se sorvesse leite do peito da última puta gostosa desse mundo ultra-filho-da-putíssimo. Havíamos atravessado valentemente a cidade rumo aos nossos apatos, e alí estávamos nós, perdidos no meio de um tambô, cansados de tanta andança. Olhei para W. e ele parecia estar totalmente fora de órbita. Mas conseguia andar cambaleante como um guerreiro que fora flagrado com uma amaldiçoada taça de vinho na mão. Eu pensei: "What a fucking travel of hell", e tentei manter um ar fleumático.

Não conseguia me lembrar direito o que tinha acontecido. Há, sim… Estávamos curtindo de boa num sunako, em busca de umas filipas a nos ninar durante a noite. Doce ilusão. Tudo ia bem até que W. engraçou em demasia com a namorada  pinay de outro braza. Aí o pau comeria solto se a Mama-san não intervisse a tempo e W. não tivesse tão bebô que não conseguisse se levantar da cadeira ou resmungar algo inteligível. De qualquer maneira as minas teriam dado no pé assim que percebessem que tínhamos pouco dinheiro. O que a gente não contava era que o P. (nosso carona) nos deixasse na mão e se mandasse sem aviso, assim que o cardo começou a entornar. Sem grana pro táxi, restou sairmos aos tropeços no meio do breu. Estávamos até no rumo certo quando W. sentiu cheiro de cachaça quando passamos por um kombini.
- Tem cerveja ali!. Balbucionou com uma voz sebosa o meu camarada.
Pensei em um monte de impropérios, mas ele completou:
- Acho que tenho grana para umas cervas.
- Porra! Tu tinhas bunfa para o táxi e nós aqui se arrastando a pé!?! Seu f.d.p.!!!!!!!
Catei as notas e acabei ficando no dilema: ficar com as cervas ou arrumar táxi para casa. Fudido e fudido-e-meio nos meus cálculos ébrios não faziam diferença alguma, então decidi: comprei quatro asahis prateadas, afinal só faltava (aparentemente) meio chão para o nosso destino. No caminho W. derrubou uma no chão e a dita rolou para dentro de um tambô alagado. Desesperado, quase se afogou no lodo tentando salvar a latinha. Caracoles, cabei me lamelando todo no resgate ao W. que não sabia mais para qual direção seguir e já ia se perder lá no meião do brejo. E o pior de tudo é que a latinha ainda ficou para trás...
W. esboçava lágrimas diante de toda a nossa dificuldade. Tentei acalmá-lo dizendo que estávamos perto de casa e logo estaríamos de banho tomado e recobrando as forças no conforto de nossas camas.
Mas aquela altura meu cérebro já tinha virado manteiga e na verdade não tinha a menor ideia de qual parte do mundo estava. Descansamos sentados na estradinha esburacada que cortava o tambô. Contemplei o belo luar, o arrozal e os casebres tristes que nos rodeavam. Não havia esperança de solidariedade ali. Mesmo assim, estando no Japão, me senti feliz por ninguém querer levar a pouca grana que restava em nossas imundas calças cheias de lama e fedendo a esterco.


Andávamos e falávamos coisas completamente desconexas, o mundo parecia girar loucamente a nossa volta, e aquilo nos irritava, xingamos um ao outro, porém dentro de um certo clima amistoso.
Este amigo que conheci desde Shimane, sempre esteve ao meu lado, nunca me deixou para trás.  Mesmo no auge da minha indignação pelas trapalhadas dele, gostava do paraíba.

- Quero ser rico! Quero ser rico! Milionário como um político petista!
Gritava meu amigo velho de guerra, cansado de se estrepar nessas fábricas nipônicas em busca do seu pote de ouro, de sua paz burguesa no bananão.

E eu matutava friamente, tanto quanto a cachaça me permitia, por que motivo a gente era obrigada a viver na penumbra de um sinistro Bananão, ou escolher entre se destruir ou se conformar com a mediocridade dekassegui.

Ainda aconteceu de cair um toró daqueles. E a coisa toda ficou muito, muito mais foda ainda. Era tanta água e vento que me imaginei um valente capitão na proa de um navio num mar revolto prestes a ser dragado para as profundezas do Oceano Pacífico, tentando salvar a tripulação e a embarcação. Nos ensopamos até os ossos, mas sobrevivemos.

Sim. Tomamos tombos homéricos no caminho.

Sim. Caímos de bunda por cima de inúmeras poças d'água.

Sim. Xinguei W. até a minha voz ficar rouca de tanto berrar por ter me metido nesta desventura dos diabos.

E sim! Me arrependi até o ultimo pentelho por estar nesta furada.

Mas aos primeiros raios de sol, o toró amainou  e conseguimos, afinal, chegar em casa como guerreiros que acabaram de voltar de uma longa batalha perdida. Ainda tive de abrir a porta do apato de W. que de tão bêbado não conseguia encontrar a fechadura e arremessei-o para dentro como se fosse um saco de batatas.

Fui para o meu canto e dormi cerca de 2 horas, mas logo acordei assustado, com o despertador berrando que era dia de trampo, zonzo de dor de cabeça, cheirando adubo de tambô, banhei-me rapidinho, vesti as pressas o uniforme e depois passei pelo apato do W. para ver se estava tudo bem. Não me atendeu de jeito maneira, o mané. Fui trampar. Meu Deus que martírio! Rastejei pelo kotei, completamente exaurido, como se estivesse uma semana perdido no deserto do Saara, mas cumpri, o quanto me foi possível, o meu dever durante o expediente, tentando braviamente disfarçar o porre da noite anterior. 

W. faltou, e foi kubi no dia seguinte. Tô pensando seriamente em largar esta vida de cachaceiro.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tadaima!!!

Uma semana foi o suficiente para resolver toda a papelada, arrumar trampo, renovar o passaporte (pagando por fora), jogar a bagulhada fora, despedir dos amigos (dei um susto na galera! ;-)), pesquisar passagem (fiquei com a Qatar, muito boa por sinal) e aqui tô eu otra vez: Japão, mais especificamente em Fukui-ken. Fazendo o mesmo trampo que Shimane, ganhando o mesmo salário do pré-crise e morando num apato bacana do Leo Palace.
Gostei pacas do pedaço, apesar da cidade ser bem interiorana. A galera do trampo também é muito maneira e cordial. Diferentemente dos brasas de Shimane, aqui o pessoal é quase todo veterano de Japão, então fica fácil dialogar.
Quando tempo vou ficar? Poxa, pela primeira vez na minha vida abandonei esta de ter planos, metas, rumo, direção, sentido. Venha o que vier, a ideia básica é ir tocando o barquinho sempre em busca de águas calmas. Uma coisa que aprendi nestes últimos meses de Bananão é que podemos planejar a vontade, mas as coisas dificilmente saem como o que tentamos combinar com o destino. O improvável teima reinar absoluto no universo. Então o jeito é tentar plantar boas sementes e esperar que rendam alguns bons frutos, e de resto, tentar aproveitar mais a vida, me divertir com tudo sem levar as coisas tão a sério, principalmente eu mesmo. Enfim, tudo que posso dizer é que hoje a noite vou comer um ramen suculento acompanhado de uma asahi geladinha, isto é o que conto como certo no meu futuro.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Festa de despedida

Periferia de Sampa. Noite gelada de junho. Barraco lotado. Churrasco queimando na laje. Bebida à vontade. Conversas, gargalhadas, berros. Blá-blá-blá. Rá-rá-rá. Mulheres cochicham, a macharada conta causos do Japão. Crianças correm para lá e pra cá. Uma mamãe gostosa, um bebê florescendo. Um, dois, três adolescentes chapados. Fumaça. Cigarro vagabundo. Latas de cervas amassadas escorrendo líquido no chão. Rostos nipos e brasas. Carros, motos. Vrum, vrum, vrum!!! Menina feia, bunda abundante. Moleque safado aproveita o espaço apertado para dar uma encochada na mestiça gatinha do lado. Pastel, torrada, guaraná Dolly, tsukemono, pudim, makizushi, bolo de banana, carne, muita carne, uma bagunça de comida e sabores se esparramam pela mesa longa e farta. É mais uma festa despedida. 3 manos voltam ao Japão. Caracoles, que inveja dos caras. Por que porra não estou comemorando minha ida tamém? Ainda tô indeciso. Ir ou ficar, eis a questão. Tento entrar no ambiente, relaxar, mas não me sinto a vontade. Bebo, bebo, bebo. Wow!!! Num átimo as ideias ficam mais sebosas e a prosa deslancha. Acabo conhecendo 3 minas. Mas agora não lembro do nome de nenhuma. Uma tá gravida. Tem belos olhos azuis puxados. Cabelo curto. E um piercing esquisito na língua. A outra é uma nikei com pedigree. Magrinha. Comedida, mas sorri com facilidade enquanto digo gracinhas. Faz jornalismo e parece ser inteligente. É leve, descontraída. Destoa totalmente do ambiente. A terceira bebe como se o mundo fosse acabar hoje a noite. Gostei dessa, apesar do hálito forte de cachaça. Um dos camaradas que se despede só enxuga. Tá triste. Vai deixar a mulher e o filhinho que acabou de nascer por aqui. As coisas noutro lado do mundo ainda tão incertas.
Puxo papo, por mera falta do que fazer com uma moça cujo nariz parece ser de um tucano. Ela até que é graciosa. Tem 24 anos. Trabalha no Supermercado Extra. Quer muito namorar um nikei. Fico olhando para ela, mas não me interesso muito. Em 1 segundo esqueço seu nome. Mas não tenho vontade de perguntar novamente. Ela fica meio sem entender porque deixei a conversa morrer no meio do caminho. Mas também não insiste e some no meio do algazarra. Sei lá porque, de repente bate uma deprê do diabos. Queria saber apreciar mais a vida. Sem essa de ficar observado a festa do lado de fora da janela com os olhos de um espírito sinistro numa noite fria e chuvosa. Seria bom ter uma companheira legal para compartilhar as coisas boas que existem nesse mundo. Mas esta difícil me sintonizar com uma alma gêmea. Tamém tô muito podre. Muito gordo. Muito bêbado. Sem nenhum animo. Agora, mesmo se publicasse um anúncio de destaque na minha testa, nem a mais feia entre as estragadinhas iria se dispor. Música, álcool, risadas. E eu ficando cada vez mais entediado…

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Quitter


Meus amigos dizem que tô desistindo muito fácil. Que existem oportunidades por aí. Só procurar, insistem. Me indicam empregos. Mas foda-se tudo.
Cansei. Encheu o saco. Sou muito infeliz aqui.
De volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Terremoto, tsunami, desastre nuclear, recessão econômica, daijoubu! Lá ao menos não terei o inconveniente de ficar desviando de cocô de cachorro na calçada.
Não te odeio Bananão, mas também não lhe amo.
Então vamos deixar para a próxima.
Quem sabe...


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ossama

Eu me mantenho descansado.

Estive dormindo

e acordei. Voltei

a dormir e, novamente,

acordei.

Muitas batalhas eu trilhei

no meu caminho.

Bombas foram lançadas

para implodir meu corpo.

Pedras foram atiradas

para ferir meus pés.

Mas não deixei o rancor me dominar.

Apenas chorei seco.

Apenas orei em silêncio.

Nas montanhas do Paquistão.

Estive dormindo na mesma cama

por longos anos imaginando

como seria bom queimar o meu passado com gasolina.

Reduzi-lo a pó como as torres gêmeas.

Hoje,

olhei o céu calmo de azul turquesa e antevi imensa jornada.

Balbuciei qualquer desabafo infantil.

Uma lágrima escorreu por minha face,

minha filha acorreu assustada aos meus braços.

Minha vida toda

pratiquei o mal, delirando por um bem maior.

Vi rostos cheios de ódio.

Que não valiam a pena.

Vi muito sangue e destruição.

Que não valeram um cêntimo de felicidade.

Alá, perdoa-me se puderes!!!

De repente!

Um estampido.

OSSAMA!!!

OSSAMA!!!

OSSAMA!!!

Uma voz que há muito não escutava me chama.

Nesta noite dormirei embalado ao som dos sonhos.

Abraçarei a minha mãe.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tá foda ...

mas tô na batalha, peito aberto e espada na mão.

Só pra encher o saco e avisar que ainda tô vivo,
ainda...

bye, piopou!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Obrigado Corinthians!!!

Que belo dia. Que noite bem dormida. Como a vida é maravilhosa. Fazia tempo que não ria tanto como na madrugada passada.

Corinthians x Tolima, parecia programa humorístico.

Yeah!!! Que dádiva o Corinthians existir para divertir os não-corintianos. Que time legal. Sempre proporcionando momentos agradáveis para seus adversários.

Obrigado timão por me fazer rir. Obrigado mesmo!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

2011 promete...

Começo de ano e alguém já tenta me ofender xingando (via comentário) de ser uma comédia negra, um babaca, um idiota, um sujeito negativo e maníaco-depressivo.
LOL! O tiro saiu pela culatra. Me pareceu mais uma descrição fiel do meu estado atual. Meus posts recentes escancaram tudo isso. Que falta de originalidade! Fico imaginando porque certas pessoas fazem questão de ficar ressaltando o óbvio ululante.
O interessante da coisa toda é que a intenção original da autora era reatar uma "amizade" que ainda acreditava existir entre nós. Francamente.
Cada vez entendo menos as pessoas e sua incapacidade de agir de forma mais lógica e coerente.