domingo, 6 de maio de 2012

Kyukei

 Bucho cheio. Tentando relaxar. Recostado no banco duro da sala de kyukei, com a expressão de quem pretende transmitir toda a mensagem de um espírito angustiado sem realmente desejar fazê-lo, converso distraído com a única braza bonitinha da fábrica. Tô apaixonado, mas não quero estar, não quero mais rolo com mulher-peoa, tento não brincar, tento não sorrir, não imaginar coisas engraçadas. Mas o instinto xavequeiro esta permanentemente ligado em modo 'on', não tem jeito, basta um filé mignon entrar no radar para meus lábios se moverem sozinhos, disparando um monte de besteiras. Ela se contorce de tanto rir, me empolgo e fico ali exercitando minha capacidade de mentir inventando um cara que, definitivamente, nunca existiu, nem existirá. Ela gosta, relaxa, passa a curtir mais a conversa. Caracas! Como são tolinhas estas peoas.

Queria ser um tolo simplório como a maioria dos dekas também, aí bastaria casar com uma tola dessas, procriar peõezinhos tolos, construir uma família de tolos e viver feliz como peão tolo neste Japão pelo resto de uma vida operária tola. Mas eu… Sinceramente não consigo me manter ancorado a porto algum. Tenho um espírito cigano que nunca me mantêm preso a nada. Sempre me canso das coisas. Tô sempre de mudança.

Verdade, verdadeira, só quero abraçá-la como quem precisa de um colete para escapar de um afogamento eminente. Carência afetiva é uma bosta mesmo. Tento transmitir algo sincero, mas sou cínico demais para isto. Essa tá laço, mas não sei se vou ou se fico.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poulet aux prunes



O filme conta a história do violonista Naser Aki Khan, cuja mulher destrói seu violino, durante uma discussão conjugal. Depois de uma intensa busca por um instrumento de mesma qualidade, percebe que nunca ficará satisfeito. Entendido isto, cai em depressão profunda, decide dar fim a vida, se tranca no quarto por 8 dias, até a derradeira partida. Neste período, alucinações, flashbacks de sua infância conturbada, o amor perdido, e o casamento fracassado explicam os relacionamentos atuais com sua esposa, irmão e filhos. E principalmente, o seu desejo por dar cabo a tudo.

A grande lição desde filme, suponho, é que para viver, não basta estar vivo. (Fica aí a lição para certos dekasseguis como yo.) Portanto, embora Nasser tenha tido uma "vida", suas reflexões no leito de morte demonstram que só passou por aqui.

O filme é um tanto parado, reflexivo, muitos diálogos, poucos eventos. No entanto, o drama está dentro dos personagens e o relacionamento intenso que amarram uns aos outros. A cena em que o protagonista, depois de décadas de distanciamento, finalmente encontra-se acidentalmente com seu verdadeiro amor e não consegue ser reconhecido, é sublime. Um belo poema melancólico.

Disparado o melhor filme que já assisti neste ano até agora. Gostei pacas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Yurushi nashi

Havia uma garota que eu observava calmamente no intervalo do trampo chato na fábrica. Eu a estudava como quem estudava filosofia. Com parcimônia e atenção.

Tinha acabado de ser contratada, e logo se notava que era diferente da maioria das outras peoas. Silenciosa, responsável e cheia de vigor.

Era baixinha e esguia, tinha olhos mestiços, arredondados e grandes sobrancelhas. Logo ficamos amigos. Quando saíamos a toa pelos cantos de Togane-shi, sentávamos quase sempre lado a lado, contemplando o mar. Esfregando os ombros. Dividíamos a cerva, e a comida, com aquela ternura de velhos e bons companheiros. Eu a encarava nos olhos e ela também parava nos meus. Eu me sentia feliz por ela estar ali e ela demonstrava imenso prazer de estar em minha companhia.

Quando nos despedíamos, o abraço era quente e apertado. Havia sempre um beijo, mas nunca na boca. Prazerosos sorrisos.  As mãos pareciam não querer se desvencilhar. Ficávamos um tempo com as pontas dos dedos se tocando – um prazer enorme para ambos. Uma química enebriante.

Depois íamos cada um para seu apato.

E eu sonhava com ela todas as noites.

Tudo ia muito bem, até que uns 2 meses depois, num dia quente de verão, quando, atrás do galpão aonde fazíamos kyukei, escorados nas costas um no outro, bastante relaxados, ela me disse num tom meio solene:

- Tô grávida, Carlito.

Meu mundo pareceu girar, como se estivesse muito bêbado.

Estático, não consegui dizer nada, apenas fiquei viajando, pensando, cada vez mais me distanciando.
Então nos levantamos e nos abraçamos. E eu senti uma vontade imensa de dizer alguma coisa, de chorar e de gritar a plenos pulmões.

E ela ficou me olhando, me olhando, esperando uma resposta.

Covardemente, eu disse:

- Isso é maravilhoso.

Pedi as contas no dia seguinte e parti sem me despedir.

Daquele momento em diante percebi que fugiria sempre da realidade. Fora a última chance de me tornar responsável, de assumir algo que me exigiria verdadeiro desprendimento.

Desde então tenho sido um covarde em assuntos assim.

E agora, um tanto bêbado, quando penso nela, tantos anos depois, penso também na minha primeira namorada, lá no Brasil, que também decepcionei, e me sinto fútil, aceitando-me como fraco e babaca. E continuo a beber, a beber, a beber…

Não mais crio expectativas românticas.

Desde aquele momento, desde que eu soube que ela não queria o pai do filho dela, mas queria a mim, sinto que agi como um individualista, um grandíssimo egoísta.

Perdi um amor que poderia ser bom e verdadeiro.

Sinto, agora, pena de todos os homens que não sabem perdoar.

Sinto pena deles, mas nunca de mim.

Não creio que superarei esta dor.

Tem um lado bom, não causo dor a mais ninguém.

Então fico aqui estancado na vida, porém inofensivo.

sábado, 14 de abril de 2012

Zangyou

Sensação modorrenta,
das horas que nunca passam.
é como estar numa cela solitária,
uma angústia infinita.

Mente ligada na labuta,
revira-se constantemente,
querendo flutuar,
querendo esquecer,
suprimir todo o cansaço,
buscar nalgum lugar,
um refúgio para sonhar.

Quantas horas se passaram?
Quantas horas perdi?
Quanto dinheiro ganhei?
Devaneio inutilmente,
pensamentos persistentes,
cálculos viciosos,
ganhos monetários,
algemas desta vida automática.

Sim, eu, Carlo,
estou conformado,
sou apenas um robô de carne.

Mas,
Porém,
contudo,
entretanto.

Valerá tudo isto a pena?
Será?
Frustrações veladas.
Tédio mortal.
Irritação.
Que vida é esta?
É isso o que quero?
Poderia estar lendo um livro.
Poderia estar na praia.
Poderia estar amando aquela garota bonita.
Poderia…
1 milhão de coisas melhores…

Mas,
E o dinheiro?
Quanto virá?

Mas,
e o tempo?
Quando terei?

Só sei que tenho de suportar.
Eu tenho,
tenho, tenho, tenho…
Que seguir adiante.

Que horas são?
Faltam 8 horas,
7, 6, 5, 4, 3, …
Ok, desisto.
Os ponteiros do relógio desta vida são tão lentos!
Até parecem girar para trás.

Respira rapaz!
Concentra em alguma música.
Esquece as horas.

Sim.
Você sabe porque esta aqui!
Então, gambatê!!!

Que um dia tudo isto acaba,
e o sonho burguês se realiza.

Para uma vida melhor...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Feliz ano novo!

Tá bom. Tô meio atrasado. Mas o que vale é intenção. Então desejo a quem quer que ainda venha aqui,

UM FELIZ 2012!!!
...
..
.
(mesmo que a porra desse mundo acabe. :-p )