segunda-feira, 23 de abril de 2012

Yurushi nashi

Havia uma garota que eu observava calmamente no intervalo do trampo chato na fábrica. Eu a estudava como quem estudava filosofia. Com parcimônia e atenção.

Tinha acabado de ser contratada, e logo se notava que era diferente da maioria das outras peoas. Silenciosa, responsável e cheia de vigor.

Era baixinha e esguia, tinha olhos mestiços, arredondados e grandes sobrancelhas. Logo ficamos amigos. Quando saíamos a toa pelos cantos de Togane-shi, sentávamos quase sempre lado a lado, contemplando o mar. Esfregando os ombros. Dividíamos a cerva, e a comida, com aquela ternura de velhos e bons companheiros. Eu a encarava nos olhos e ela também parava nos meus. Eu me sentia feliz por ela estar ali e ela demonstrava imenso prazer de estar em minha companhia.

Quando nos despedíamos, o abraço era quente e apertado. Havia sempre um beijo, mas nunca na boca. Prazerosos sorrisos.  As mãos pareciam não querer se desvencilhar. Ficávamos um tempo com as pontas dos dedos se tocando – um prazer enorme para ambos. Uma química enebriante.

Depois íamos cada um para seu apato.

E eu sonhava com ela todas as noites.

Tudo ia muito bem, até que uns 2 meses depois, num dia quente de verão, quando, atrás do galpão aonde fazíamos kyukei, escorados nas costas um no outro, bastante relaxados, ela me disse num tom meio solene:

- Tô grávida, Carlito.

Meu mundo pareceu girar, como se estivesse muito bêbado.

Estático, não consegui dizer nada, apenas fiquei viajando, pensando, cada vez mais me distanciando.
Então nos levantamos e nos abraçamos. E eu senti uma vontade imensa de dizer alguma coisa, de chorar e de gritar a plenos pulmões.

E ela ficou me olhando, me olhando, esperando uma resposta.

Covardemente, eu disse:

- Isso é maravilhoso.

Pedi as contas no dia seguinte e parti sem me despedir.

Daquele momento em diante percebi que fugiria sempre da realidade. Fora a última chance de me tornar responsável, de assumir algo que me exigiria verdadeiro desprendimento.

Desde então tenho sido um covarde em assuntos assim.

E agora, um tanto bêbado, quando penso nela, tantos anos depois, penso também na minha primeira namorada, lá no Brasil, que também decepcionei, e me sinto fútil, aceitando-me como fraco e babaca. E continuo a beber, a beber, a beber…

Não mais crio expectativas românticas.

Desde aquele momento, desde que eu soube que ela não queria o pai do filho dela, mas queria a mim, sinto que agi como um individualista, um grandíssimo egoísta.

Perdi um amor que poderia ser bom e verdadeiro.

Sinto, agora, pena de todos os homens que não sabem perdoar.

Sinto pena deles, mas nunca de mim.

Não creio que superarei esta dor.

Tem um lado bom, não causo dor a mais ninguém.

Então fico aqui estancado na vida, porém inofensivo.

3 comentários:

Nicolas disse...

História complicada Carlo; creio que sua decisão não pode ser julgada, pois nesse caso não está certa nem errada, é uma escolha apenas. Talvez houvesse um grande amor daí, quem sabe?! Apesar das grandes responsabilidades que você ia assumir de uma hora para outra, sem antes ter tido um relacionamento além de uma íntima amizade com ela.

Enfim, trago alguns videos de animações poéticas:

http://www.youtube.com/watch?v=dj77qUPmQqA&feature=related

e

http://www.youtube.com/watch?v=PTdzCAGH3lU

Se tiver alguma coisa poética ou inspirada que você leu ou assistiu passa por ai.

Quanto ao romantismo ou a poesia, eles sempre existem, mesmo que a um nível íntimo e imaginativo, porque a realidade chega a um ponto que as vezes aperta de tal forma as engrenagens do coração, que acabam por torná-lo um relógio quebrado que não gira mais os ponteiros, mas que por dentro ainda move seus mecanismos.

banzai disse...

Carlo,
Um dos relatos mais sinceros, nu e cru que li na blogosfera, corajoso. Yurushitekudasai. Dê chances ao seu coração, diga sim a ele.
Madoka

Leh disse...

Carlito,

Se for possível remediar, remedie. Se não for mais possível, dê a volta por cima, acertando com as experiências.

O importante, daqui pra frente, é dar uma chance a si mesmo, e nunca perder e desfrutar muito dos momentos de felicidade.

kisses